Futebol e Orientação Profissional?

Trabalho e prazer
Joel Nunes dos Santos, psicólogo.

Caso se veja numa situação em que tenha de ganhar algum dinheiro,  como você imaginaria que o conseguiria? Que tipo de coisa útil (bem ou serviço) você sente ou sabe que é capaz de oferecer?” (Primeira questão do questionário “Da Vocação à Profissão”)

A citação acima é a primeira questão do questionário vocacional denominado “Da Vocação à Profissão”, que desenvolvi para ajudar na escolha de profissão. Não há resposta errada para esta pergunta. Sua resposta vale por si mesma. Quanto mais clara e afirmativa for sua resposta, mais rápido se torna o processo de descobrir com que profissão você combina.

Para ajudá-lo a dar maior clareza à sua resposta, adotei a atividade esportiva como cenário, como “pano de fundo” da profissão. Há duas boas razões para isso. A primeira é porque a atividade esportiva provavelmente vai tomar espaço enorme na mídia nacional no ano que vem, principalmente no RJ, quando acontecerão os jogos Pan-Americanos Rio 2007, o que muito certamente aumentará a oferta de empregos, alguns dos quais continuarão sendo mantidos, uma vez que o empresariado conclua que esporte dá dinheiro e por isso queira investir no setor. A segunda é porque se diz que o brasileiro troca de tudo, de emprego, de marido, de mulher, de sexo, de casa, de trabalho etc., só não troca de time. Uma vez flamenguista ou corintiano, sempre flamenguista ou corintiano. Eu mesmo só conheço um caso de troca de time, um cunhado que era palmeirense e virou são-paulino. Por isso, parece ser mais fácil para nós brasileiros imaginarmos como juntar trabalho e prazer tendo o mundo esportivo (que é o mundo dos grandes espetáculos) como pano de fundo, pois é sabido que uma vida feliz é aquela em que o sujeito trabalha pelo que ama e ama o trabalho que faz.

Além disso, o esporte (particularmente o futebol), no Brasil, mobiliza mais o povo do que a política. E como como toda criação do homem, embute uma formidável quantidade de inteligência. Basta considerar que cada modalidade esportiva ou teatraliza a disputa (física ou intelectual) do homem contra o homem (boxe, xadrez, futebol, vôlei, esgrima, judô etc.), o seu esforço para superar ou moldar a natureza (salto em altura, fisiculturismo, halterofilismo, provas de resistência etc.), ou combina essas duas coisas (a maratona e outras provas de resistência). A atividade esportiva é como um teatro onde são encenados os esforços de guerra e de sobrevivência do homem, para superar-se, para superar outros homens e para vencer os limites e obstáculos que a natureza coloca. Por isso no esporte ninguém morre no final: não é uma guerra de verdade e, ao invés de produzir luto, produz alegria. As tristezas aí são passageiras. Razão por que é  tão fácil tantas pessoas amarem o esporte e também sentirem prazer ao dele participarem ou pelo menos por trabalharem onde ele seja praticado.

Suponha, meu caro jovem, que por causa dos jogos no Rio em 2007, comece a haver um formidável aporte de dinheiro no setor com vista a tornar a atividade esportiva um negócio interessante para todo mundo. Dinheiro atrai profissionais e alguns se encaixariam neste negócio porque simplesmente querem ganhar dinheiro, outros porque não enxergam nada mais importante do que  “tirar crianças e jovens das ruas e do caminho das drogas”, outros porque gostam de estar num ambiente onde as pessoas são “pra cima” . Cada um, por motivos pessoais, apesar de estar no cenário a trabalho, conseguiria ganhar dinheiro e ao mesmo tempo desfrutar de algum tipo de prazer. .

Como o dinheiro é necessário para praticamente tudo que se queira fazer, a atividade esportiva, crescendo no nosso estado (não custa ser otimista!) e em seguida no restante do país (também não custa continuar sendo otimista!), criaria o cenário no qual os profissionais de todas as áreas de formação ganhariam seu suado dinheiro. Faça-se a pergunta: “Que profissional eu com certeza posso me tornar e então ganhar dinheiro, bastante dinheiro, me encaixando no mundo esportivo?”. Respondendo-a, dará um grande passo para descobrir que profissão combina com você.

Para o esporte poder ser praticado, é preciso haver quem o pratique. Mas é preciso também haver quem crie ou mantenha as condições que permitam sua prática. Uma coisa é o papel do atleta, outro do que cuida de sua saúde, outro do que providencia para ele roupas e calçados, e assim por diante. O atleta pode ser “atleta amador”; os demais profissionais não: o médico, o fisioterapeuta, o nutricionista, o fornecedor de material esportivo, o responsável pela hotelaria e acomodações, o orientador psicológico etc., esses todos têm de ser muito bons profissionais.  Cada um desses personagens trabalha fazendo uso de aspectos da inteligência muito diferentes uns dos outros, razão por que seria pura adivinhação acertar qual entre todos os profissionais envolvidos com o mundo esportivo é o mais inteligente. O profissional que você tiver competência para ser é necessariamente inteligente, caso contrário seria como um nutricionista que não consegue manter o atleta dentro do seu peso certo, ou do comerciante que não acerta o número das chuteiras dos atletas, ou do psicólogo que não consegue despertar nos atletas seu espírito de vitória, e assim por diante.

Para poder ganhar dinheiro, exercendo um papel profissional no cenário esportivo, e ao mesmo tempo sentir prazer em trabalhar na área que escolheu, é preciso que você tenha competência profissional. É preciso que você:

1) seja atleta. Você tem de gostar de adestrar o próprio corpo para disputas, que em muitos casos nem duram muito tempo; e também ser capaz de dizer não aos mais diversos tipos de prazer. Pois atletismo e gandaia não combinam;

2) seja capaz de cuidar do físico dos atletas ou dos recursos necessários às atividades esportivas. Você precisa ser médico, enfermeiro, gastrônomo, cozinheiro ou algum outro profissional da área da saúde; ser arquiteto ou  engenheiros para projetar e calcular as condições físicas da prática esportiva; ser comerciante para fazer circular mercadorias (materiais desportivos ou outros);

3) seja capaz de divulgar eventos, notícias e opiniões de interesse. Você precisa ser jornalista, propagandista, marketeiro;

4) seja capaz de cuidar do bem-estar físico e psicológico dos atletas, torcedores, investidores etc. Você precisa ser  psicólogo, agente de turismo, assistente social;

5) seja capaz de ensinar e treinar atletas. Você precisa ser pedagogo, professor de Educação Física, técnico, assistente técnico;

6) seja bom administrador de pessoas e recursos, de modo que toda e qualquer atividade possa dar-se de maneira ordenada e econômica. Você precisa ser administrador de empresas; contador;

7) conheça leis esportivas e não esportivas. Você precisa ser advogado;

8) saiba como fazer negócios e ganhar dinheiro; saiba fazer análise de custos e viabilidade econômica de projetos e seja capaz de interessar investidores (privados ou públicos); fiscalize. Você precisa ser ou corretor de valores ou algo parecido;

9) saiba aplicar leis e regras. Você precisa ser árbitro;

10) seja capaz de assumir cargos e falar em nome de empresa ou de agremiação esportiva. Você precisa ser político, ou ser secretária;

11) seja capaz de promover certames e espetáculos. Você precisa ser profissional da área de arte e espetáculos;

12) seja capaz para a tarefa de prevenir acidentes. Você precisa ser bombeiro, policial, paramédico.

Se você é um desses profissionais, ou outro que não me ocorreu mencionar, não é de se admitir que estará ganhando dinheiro ao mesmo tempo em que sentindo prazer no trabalho?

Não responda pensando “eu desejaria tanto ser médico, ou outra coisa qualquer!…” – responda pensando “eu tenho certeza de que ser médico é a minha praia, ou ser tal outra coisa é minha praia!”. Pense no que você é capaz de fazer porque já se viu fazendo (na escola, em casa, na rua, nas férias, quando foi obrigado a cumprir ordens, quando estava à toa…). Aqui vale mais recordar do que simplesmente sonhar.

Use o modelo acima. As alternativas de profissões mencionadas não esgotam o assunto. Descubra outras. Mas não deixe de pensar que o fundamental é você definir em que setor você é capaz de realmente ser útil, de atuar profissionalmente, pois é nele que sua competência gera dinheiro. Dificilmente alguém o contrataria apenas porque você é uma pessoa legal pra caramba, porque você é a simpatia em pessoa. O empregador só contrata quem é capaz de resolver problemas concretos, razão que fez surgir o ditado “beleza não põe mesa” – a pessoa tem que “mostrar serviço”. Que serviço você é capaz de mostrar?

Joel Nunes dos Santos – Psicólogo / orientador profissional

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