Orientação profissional beneficia adolescentes

Vanessa S. Nakasato

Especial para o Aprendiz

Otho Garbers

Cerca de 75% da população brasileira deseja mudar de emprego, segundo dados levantados pelo psicoterapeuta Leo Fraiman. Especialista em psicologia educacional, Fraiman ressalta que grande parte dessas pessoas é infeliz profissionalmente por ter feito a escolha errada na adolescência, ou seja, antes de prestar vestibular. Optar por uma carreira para seguir pelo resto da vida não é uma tarefa muito fácil para ninguém, tampouco para um adolescente de 16 ou 17 anos. Nessa idade, são poucos os jovens que se conhecem o suficiente para tomar uma decisão certeira. Por isso, não raramente, muitos descobrem já adultos que gostariam de ter outra profissão. De acordo com Fraiman, a má escolha pode ter diversos responsáveis. O primeiro motivo é eleger uma carreira pelo glamour que ela aparenta. O aluno imagina o curso e a profissão de uma forma e, quando chega na faculdade ou no mercado de trabalho, percebe que é completamente diferente. Outro motivo de fracasso é o adolescente seguir a carreira da moda. Ele escuta dos amigos que tal profissão dá dinheiro ou tem um índice alto de empregabilidade e decide fazê-lo, mesmo que a carreira não tenha nenhuma relação com sua personalidade. O último ponto são pessoas que seguem o desejo dos pais só para satisfazê-los. “A conseqüência menos negativa de tudo isso é o indivíduo se decepcionar e largar o curso no primeiro ou segundo ano. A pior seria o estudante não mudar e se tornar, invariavelmente, um profissional medíocre ou uma pessoa infeliz. Isso é o que mais acontece”, lamenta Fraiman. O psicoterapeuta afirma que as escolas podem ajudar a evitar desilusões. Segundo ele, além da orientação profissional, a escola também pode trabalhar como facilitadora, levando palestras sobre as mais diversas carreiras, empreendedores de diferentes áreas e organizando visitas dos alunos à empresas para que possam conhecer a realidade das profissões. “É extremamente importante a escola trazer qualquer tipo de informação e formação que ajude o jovem a se identificar com uma área. Isso, sem se esquecer do apoio dos pais”, diz Fraiman. O psicanalista e educador Rubem Alves concorda. Ele se lembra de um amigo que era um dentista muito bem-sucedido. Estava ficando rico e, com 40 anos de idade resolveu deixar a odontologia. Fechou o consultório, foi viver modestamente com a família e iniciou um curso de sociologia. “Hoje, está feliz da vida”, conta. Para o educador, é prematuro obrigar um adolescente a tomar uma decisão tão séria como a escolha de uma profissão. “A maioria das pessoas descobre que detesta a profissão que escolheu, mas a arrasta para sempre por não ter coragem de começar da estaca zero”, comenta. “No caso dos jovens, muitas das escolhas são feitas por razões românticas. Imagine um moço que queira ser médico. Ele tem fantasias: as roupas brancas, as cirurgias, as luvas. A rotina desse profissional é outra coisa completamente diferente. Quando as pessoas vão tomar uma decisão, elas não podem ser levadas pelo charme, pela visão romântica da carreira. É necessário pensar em como será seu cotidiano”, afirma Alves, que atribui ao vestibular a pressa pela decisão precoce. Para Leo Fraiman, o grande problema do vestibular é não avaliar os principais elementos que se observa no mercado de trabalho: fatores comportamentais e de atitudes. Autor do livro Orientação Profissional em sala de aula, Fraiman explica que existe uma enorme carência de profissionais realmente capacitados e que são raros os colégios de ensino fundamental e médio que abraçam a formação humana mais ampla. “A grande maioria só está preocupada em aprovar seus alunos no vestibular. Isso explica, em parte, porque o processo seletivo de uma multinacional não consegue, muitas vezes, nem preencher uma vaga. Se por um lado existe muito jovem procurando emprego, por outro lado há muitas empresas em busca de jovens bem formados e com dificuldade em encontrá-los”, comenta o psicoterapeuta. A psicóloga Sofia Esteves é da mesma linha de pensamento e afirma que cursar uma universidade famosa, de primeira linha e morar fora do Brasil não são mais garantias de obter um emprego. Fundadora da Companhia de Talentos, uma das maiores recrutadoras de profissionais para as grandes corporações do país, ela ressalta que as habilidades comportamentais são as que mais contam hoje. Além de inglês fluente, domínio de informática, é imprescindível iniciativa, capacidade de trabalhar em equipe, ter análise crítica, raciocínio lógico, garra, determinação, boa comunicação e bom-humor. “São todas características do indivíduo, que podem ser desenvolvidas na família, realizando trabalhos comunitários, esportes coletivos, praticando alguma atividade artística ou na própria escola”, sugere ela. Instituições que têm a educação mais voltada para os valores, geram debates e dão oportunidades de o aluno apresentar seminários, ajudam o adolescente a desenvolver o auto-conhecimento. “Só não podemos nos esquecer que nossos jovens precisam ir para a universidade e o passaporte ainda é o vestibular. Por isso, é importante que a escola se preocupe com o conteúdo, sim. Sem contar que conhecimentos gerais somam pontos a qualquer profissional. O que não pode é a escola pensar somente no vestibular ou em trabalhar apenas o comportamento do adolescente. O ideal é casar as duas coisas para, assim, atingir os resultados desejados”, acha.

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