A vida sem emprego

Vieira & Clemente – Revista Época n.416

Súmula

Seis meses de estágio. Foi esse o tempo que a gaúcha Priscila Fighera teve de experiência anotada em sua carteira de trabalho. “Foi o suficiente para cansar da vida de empregada”, afirma. Aos 24 anos, abriu, junto com três amigos, uma pequena empresa de pesquisas de mercado, a Box 1824. Com modo inovador de realizar seu trabalho – em vez de se basear apenas em questionários, eles adotam a rotina dos pesquisados para observá-los -, a Box conquistou clientes como a operadora de telefonia celular Claro, a fabricante de calçados Melissa, o provedor de acesso à internet iG, a fabricante de celulares Nokia, além de AmBev, Fiat, Pepsi e Banco Itaú. Hoje, três anos depois de abrir a empresa, os sócios estão milionários.

“A verdade é que nós nunca quisemos ter um emprego”, diz Rony Rodrigues, de 26 anos, um dos sócios da Box. Foi dele a idéia de montar a empresa. Quando era estagiário de uma agência de publicidade, um cliente o chamou para realizar uma pesquisa. “A vida na agência estava boa, mas vi que tinha talento para fazer algo mais. Conversei com a Priscila e montamos o negócio”, afirma. Priscila e Rony fazem parte de uma nova geração de jovens talentosos, que vê com desconfiança aquilo que seus pais e avós consideravam o caminho do sucesso: a carreira nas grandes empresas. Essa mudança de mentalidade não veio do nada. Ela é conseqüência da transformação por que passaram as companhias no mundo inteiro. A partir da década de 80, crises econômicas, avanços tecnológicos e o acirramento da concorrência trazido pela globalização obrigaram as empresas a tornar-se mais enxutas. E o maior corte de custos ocorreu na folha de pagamentos. O emprego numa grande empresa, que era considerado uma conquista para a vida inteira, tornou-se instável. E garotos de classe média passaram a presenciar um drama familiar até então raríssimo: pais demitidos.

“Na década de 1990, o sentimento de fidelidade permanente a uma empresa foi substituído por outro, o de utilidade mútua”, diz o consultor Max Gehringer, colunista de ÉPOCA (leia artigo à pág. 51). “Mudar de emprego, que era visto como algo vergonhoso (ter três empregos em dez anos era chamado de sujar a Carteira Profissional), passou a ser a nova regra.” A estabilidade foi substituída pela busca de oportunidades. Primeiro, dentro das empresas. Mas, num segundo momento, também fora.

Foi o que aconteceu com o paulista Flávio Federzoni Silva. Aos 22 anos, ele decidiu largar o curso de Relações Internacionais da PUC de São Paulo por temer, de antemão, o desemprego que abalou a vida do pai. Flávio Lúcio da Silva, de 49 anos, foi demitido de uma grande seguradora após 13 anos na empresa. “O mundo empresarial se tornou um circo de fusões e aquisições. Num belo dia, a companhia em que eu trabalhava foi comprada e eles decidiram encerrar a operação no Brasil. Fui para a rua”, diz Silva.

“Não quero essa vida para mim”, afirma Federzoni. Ele convenceu o pai a usar parte do dinheiro da rescisão na abertura de uma franquia do Rei do Mate, uma rede de lanches rápidos, para ele próprio tocar. Seu Flávio se convenceu. Hoje, os dois têm lojas no Shopping Ibirapuera, em São Paulo. “Sou novo, mas já tenho autonomia para tomar decisões e pagar minhas próprias despesas”, diz Federzoni. Neste ano, ele voltou para a faculdade. Cursa Administração na Escola Superior de Propaganda e Marketing. “O curso vai servir para complementar minha formação, não para eu arrumar emprego”, diz. “Se depender de mim, serei patrão para o resto da vida.”

Os números ajudam a explicar a desilusão com as grandes empresas. Nos últimos 13 anos, as grandes corporações, com mais de mil funcionários, perderam 1,8 milhão de postos de trabalho, de acordo com um estudo do Ministério do Trabalho. Já as pequenas empresas contrataram 3,8 milhões de pessoas a mais que demitiram, durante o mesmo período. Esse é um fenômeno mundial. Entre 1995 e 2002, 31 milhões de empregos em fábricas foram eliminados nas 20 maiores economias do mundo, segundo estudo da Alliance Capital Management, um dos maiores fundos de investimentos dos EUA. Esse sumiço de empregos ocorreu num período em que a produtividade fabril subiu 4,3% em média e a produção industrial do planeta aumentou assombrosos 30%. Ou seja, a economia cresce sem criar empregos.

“Os postos de trabalho formais estão sumindo”, afirma o consultor Luís Carlos Cabrera, professor da Fundação Getúlio Vargas de São Paulo e sócio da empresa de contratação de executivos PMC Amrop. “No início da década, cada 1% de crescimento do Produto Interno Bruto representava 1% de aumento de emprego. Hoje, se o PIB cresce 1%, o emprego aumenta só 0,2%”, diz Cabrera. “As empresas descobriram na tecnologia uma maneira de ganhar produtividade sem depender de mais gente trabalhando”, disse a ÉPOCA o economista americano Jeremy Rifkin, autor do best-seller O Fim dos Empregos. Um bom exemplo dessa tendência acontece no mercado financeiro. “Nos Estados Unidos, o número de bancários caiu pela metade nos últimos 15 anos. Mesmo assim, o lucro dos bancos nunca esteve tão grande”, diz Rifkin (leia entrevista à página 50).

Também no Brasil o setor bancário encolheu quase pela metade em dez anos. “Eram 817 mil empregados em 1987, ficaram 497 mil em 1996, enquanto o número de clientes mais que dobrou”, diz o consultor Ricardo Neves, colunista de ÉPOCA. Para Neves, o vínculo entre empregados e patrões se tornou tão flexível que caminha para a virtualização. “Você vai perder seu emprego fixo. Seu filho não vai sequer encontrá-lo. E o seu neto vai rir de tudo isso”, afirma.

O carioca Rafael Duton, de 27 anos, é um dos milhares de jovens que afirmam nunca ter tido vontade de encontrar emprego. Há quatro anos, quando estava para concluir o curso de Engenharia da Computação na PUC do Rio de Janeiro, decidiu tocar o próprio negócio, em vez de engrossar a lista de candidatos a trainee das grandes empresas. Matriculou-se no programa de formação de empreendedores da faculdade e fundou, junto com mais cinco sócios, a nTime, empresa que desenvolve jogos e softwares de entretenimento para celulares.

Seu primeiro contrato, firmado com a operadora Vivo, rendeu R$ 20 mil e trouxe a certeza de que havia mercado para a empresa. Em 2005, a nTime faturou R$ 12 milhões. “Se me perguntassem hoje se eu gostaria de ser empregado, com certeza diria que não”, afirma. “Já recusei ofertas de emprego com salário de R$ 10 mil. Ganho um pouco menos aqui, pois investimos todo o lucro que temos na empresa, mas sou feliz. Passo noites em claro por mim, não pelos outros. A sensação geral é que as grandes empresas só querem saber de resultados de curto prazo e não estão nem aí para as pessoas.”

As irmãs Andréa e Silvina Ramal também tiveram o auxílio da incubadora da PUC do Rio para montar seu empreendimento. Elas trocaram empregos com carteira assinada, benefícios e salário de R$ 5 mil mensais para abrir a ID, uma firma especializada em projetos pedagógicos para empresas. A ID entrou na incubadora da PUC em 2001 e saiu em 2003. Em apenas três anos de independência, conquistou uma carteira de 30 clientes, formada por empresas como a Companhia Vale do Rio Doce e a Petrobras. Outro que largou a carreira para se arriscar num novo negócio foi o paulistano Eduardo Rosemberg, de 35 anos. Administrador de empresas, teve sucesso no mercado financeiro. Mas não gostava do que fazia. Em 1999, abriu a Roxos & Doentes, uma loja especializada em uniformes e acessórios de futebol. Faturou R$ 15 milhões no ano passado. Com a Copa do Mundo, a expectativa é crescer 30% em vendas neste ano. “Hoje faço parte daquele grupo da população que é absolutamente apaixonado pelo que faz”, diz Rosemberg.

As grandes empresas não têm contra si apenas a diminuição de oportunidades. A pressão por resultados financeiros de curto prazo cresceu e, com ela, as metas tornaram-se mais difíceis e a vida nos escritórios mais estressante. Empresas mais enxutas têm, por definição, menos graus hierárquicos. Isso as torna mais rápidas. Mas, ao mesmo tempo, dificulta o galgar de posições. “O ambiente corporativo se tornou uma panela de pressão, o que inibe a inovação e a criatividade”, afirma Afonso Cozzi, professor titular da cátedra de Empreendedorismo da Fundação Dom Cabral, de Belo Horizonte. “Para o jovem talentoso, imaginar a possibilidade de passar vários anos de sua vida num ambiente como esse, sujeito a demissões e trocas de comando o tempo todo, é um pesadelo.”

Acrescenta-se a isso a mudança cultural pela qual o mundo vem passando. A comunicação sem fronteiras, o ritmo de vida de videoclipe, a velocidade, enfim, formaram uma juventude mais irrequieta. Para essas pessoas, a burocracia é um fardo maior que para as gerações passadas. Em suma, para boa parte dos jovens as grandes empresas tornaram-se lugares chatos.

E isso ajuda a explicar a onda de empreendedorismo que se verifica em boa parte do mundo capitalista. No Brasil, o número de microempresas, que em 1996 era de 2,9 milhões, saltou para 4,6 milhões em 2002 (último dado disponível do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, IBGE). É um aumento de 55,8% em seis anos. Esse salto explica por que o Brasil está em sétimo lugar na lista de empreendedorismo do Global Entrepreneurship Monitor (GEM), o maior instituto de pesquisa sobre o assunto do mundo.

É preciso, no entanto, qualificar essa boa posição no ranking. Venezuela, Tailândia e Jamaica também se encontram bem posicionadas. Isso porque a lista não diferencia os empreendedores por necessidade – gente que perdeu o emprego e precisa fazer algo para sustentar a família – dos empreendedores por oportunidade – aqueles que vislumbraram uma brecha de mercado lucrativa. O Brasil ainda tem muita gente que empreende por falta de alternativa. Mas, nos últimos anos, os empreendedores de oportunidade tornaram-se a maioria (leia a tabela à pág. 46). “Os jovens estão percebendo que as melhores e mais fascinantes oportunidades de realização profissional podem não estar na empresa dos outros, mas sim na deles”, diz Paulo Veras, diretor-geral da Endeavor, uma organização de fomento ao empreendedorismo.

“O empreendedorismo é um fenômeno irreversível”, afirma Eduardo Bom Angelo, presidente da BrasilPrev. “Para as empresas, resta criar condições para ter empreendedores dentro de casa.” O risco, se não fizerem isso, é aprofundar um paradoxo que já começa a existir: muitos jovens talentosos, que as empresas querem atrair, não se interessam por trabalhar nelas, enquanto os menos empreendedores fazem filas em suas portas. “Sem uma liderança que valorize o perfil empreendedor e um ambiente de trabalho favorável, as organizações vão dar corda para que esse paradoxo aconteça com mais intensidade. E vão perder seus melhores talentos”, diz Bom Angelo.

Para Paulo Veras, da Endeavor, esse é um dos motivos pelos quais o Google se tornou a empresa da moda. “Por que o criador do Orkut não saiu do Google e abriu uma empresa própria? Porque o Google ofereceu a ele todas as condições, tanto de trabalho quanto financeiras, para continuar a empreender lá dentro”, diz Veras. Segundo ele, esse é um dos motivos pelos quais o Google se tornou uma das melhores empresas para trabalhar do mundo. Mas, ao se tornar uma grande empresa, o próprio Google também passou a sofrer contestação de muitos jovens. Dois empresários da novíssima geração, Chad Hurley e Steven Chen, criadores do site de vídeos YouTube, considerado uma das maiores preocupações do Google, dizem que a empresa tem uma cultura “arrogante”.

“O empreendedorismo se tornou um fenômeno tão forte que muitos jovens passaram a satanizar as grandes empresas”, afirma Jeffry Timmons, professor do Babson College, a principal faculdade dedicada ao empreendedorismo nos EUA. Timmons é um dos pioneiros do movimento pró-empreendedorismo. Aos 65 anos, diz ter visto acontecer uma revolução. “É claro que sempre vai haver gente com saudade da sensação de segurança representada pelas firmas”, afirma. “A diferença é que, hoje, já existem mais pessoas dispostas a trocar essa segurança pelo risco de construir alguma coisa importante.”

No Brasil, pode-se notar essa revolução pelas faculdades de Administração. Bom Angelo, da BrasilPrev, foi o primeiro a criar um curso formal de empreendedorismo numa faculdade paulista, o Ibmec, em 2000. De lá para cá, o número de cursos do gênero só faz crescer. Na Fundação Getúlio Vargas, por exemplo, o assunto não era abordado num curso regular até 2001. Naquele ano, foi criado um programa na graduação para formar empreendedores. Em 2004, a instituição criou um centro de empreendedorismo para fortalecer o estudo. “Hoje, toda boa faculdade tem um curso de empreendedorismo”, diz Bom Angelo. “É um indício de que o fenômeno está explodindo no Brasil”, afirma.

Para o educador mineiro Fernando Dolabela, um dos pioneiros no ensino de empreendedorismo no país, o assunto “é tão sério que deve ser ensinado já na escola fundamental”. Dolabela desenvolveu um programa com algumas escolas de Belo Horizonte para ensinar jovens de 14 a 17 anos a empreender. Sua iniciativa vem sendo copiada pelo país. Na escola paulistana Lourenço Castanho, por exemplo, foi criada uma disciplina de Economia que faz parte do currículo do ensino médio – e é tão importante quanto Português, História ou Matemática.

O curso tem um forte viés empreendedor. No primeiro ano, os alunos abrem as empresas. “Eles pesquisam preços para alugar escritórios, se familiarizam com a burocracia necessária para abrir o negócio e montam um fluxo de caixa para pagar as despesas e os funcionários”, afirma Osvaldo Ferreira, professor da Lourenço Castanho. No segundo ano, cada aluno recebe uma verba virtual de R$ 150 mil para montar uma carteira de investimento em ações e capitalizar a própria empresa. “A idéia é fazer com que, no futuro, o aluno se preocupe não em montar um currículo, mas um plano de negócio”, afirma Ferreira. Ele se refere ao documento, apresentado a possíveis investidores, que mostra como a empresa deve funcionar no presente e no futuro. “Os alunos aprendem a montar um plano completo, com previsão de receitas e despesas e capacidade de investimento. É uma forma de prepará-los para os novos tempos.”

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