Entrevista com Rubem Alves

A colheita vem depois…

Fonte: http://www.mundojovem.pucrs.br/
Publicada na edição nº 381, outubro de 2007.

Rubem Alves Rubem Alves, 73 anos, escritor, gosta dos temas comuns da vida e escreve histórias para crianças. Assim apresenta-se o renomado educador, e vai logo dizendo: “nesse momento a minha grande preocupação e a minha grande aflição é a crise ambiental que está se anunciando sobre a terra. Há previsões de que ao final do século haverá apenas uma região terrestre para ser habitada, que é o pólo Sul. O gelo vai derreter e o resto do planeta vai se transformar num deserto. Isso me dá grande tristeza. Há muita coisa que pode ser feita para reflorestamento, despoluição, controle ambiental. Mas para mim, estes são cuidados paliativos.

A coisa é muito simples: nós somos um planeta limitado, com recursos limitados. E a idéia de crescimento constante é absolutamente incompatível com as limitações do planeta”.

Rubem Alves,
73 anos, educador, escritor, gosta dos temas comuns da vida e escreve histórias para crianças.
Na internet: www.rubemalves.com.br

Mundo Jovem: O que a escola e a educação têm a ver com a vida?

Rubem Alves: Por que os seres humanos se educam? A primeira razão por que os seres humanos aprendem é para sobreviver. Nós aprendemos ferramentas de sobrevivência. Todos os saberes são ferramentas de sobrevivência. É para isso que a gente aprende.

Os nossos saberes têm que ter um objetivo prático. Para que servem? Para dar competência para sobreviver. Outra coisa é que a gente aprende não só para sobreviver, mas para sobreviver bem. Nós temos padrões estéticos de beleza, de prazer, de busca. Isto faz parte da vida humana. Vida humana não é só viver, mas é vida com a toda sua exuberância cultural.

O que está acontecendo é que a coisa fundamental para que isso se dê, que é a vida, está sendo colocada em cheque. Do meu ponto de vista, a primeira prioridade para a educação, seria exatamente a questão da sobrevivência da Terra. Em tudo o que se ensina deveria se fazer a pergunta: o que é que isto tem a ver com a preservação da Terra? Porque se ensina muita coisa que não tem a ver com coisa nenhuma. Mas agora existe uma prioridade, e nós temos que tomar esta prioridade que é a preservação da Terra, a salvação da Terra.

Mundo Jovem: Os educadores estão preparados para educar para a vida?

Rubem Alves: Há educadores extraordinários. Há escolas extraordinárias. Mas há professores que vivem numa situação de penúria, de indigência intelectual nesses confins do Brasil.

Se a educação é a grande prioridade, fico desanimado. E a gente tem que pensar: o que a gente pode fazer?

Do meu ponto de vista, a transformação da educação brasileira não virá de nenhum ato burocrático, institucional. Aliás, a burocracia é a grande inimiga da educação, porque a burocracia impede as soluções ou as apreensões da realidade que acontecem no dia-a-dia, porque a burocracia formaliza tudo. As coisas são todas em grade. Aliás, se usa esta expressão na escola: a grade curricular. Eu diria que a expressão grade curricular foi inventada por um carcereiro desocupado. A vida não acontece em grades. Então é preciso mudar a substância da nossa educação.

Mundo Jovem: Como isso acontece na escola?

Rubem Alves: Vou dar um exemplo bem simples, o exemplo que mais uso: acho análise sintática absolutamente inútil. Não ensina as pessoas a ler, não ensina as pessoas a compreender, não tem a menor utilidade. Por que a análise sintática está no programa? Porque devia haver algum professor de análise sintática na comissão que elaborou os programas. Os programas não são feitos pela análise das necessidades, os programas são feitos por vaidades pessoais. Então, gasta-se tanto tempo com isto.

O que deve mudar? Quero muito que os alunos amem a leitura e amem os livros. Mas como é que a gente ama a leitura e ama os livros? Lendo, lendo, lendo! A gente aprende lendo e não fazendo análise sintática. Se quiserem colocar análise sintática na pós-graduação, ótimo, mas para a menina lá de 12 anos de idade não tem a menor utilidade, não ensina a ler. Então, as crianças, os adolescentes, têm que ler muito sobre a nossa crise para saber o que está acontecendo.

As pessoas, em geral, no dia-a-dia, não se dão conta da gravidade. É como se isso não fosse com elas. Isso é resultado do nosso hábito de televisão. Você vê as coisas acontecendo na televisão, mas nunca é com você. Sempre é uma coisa lá adiante. Então você coloca também a crise ambiental como se fosse na terra da televisão, como se não tivesse nada a ver com você, como se não fosse a sua vida e a vida dos seus descendentes.

Mundo Jovem: O que os jovens esperam dos professores e da educação?

Rubem Alves: É difícil você pensar os jovens em geral. Eu acho uma coisa: a gente aprende, tem que aprender aquilo que tem a ver com o que está em torno da gente. Se eu vivo numa floresta amazônica, não tem o menor sentido eu aprender coisas do deserto do Saara, porque não é o meu meio ambiente. Se existe um menino de 14-15 anos que vive numa periferia violenta ou no tráfico de drogas, ele precisa aprender coisas que tenham a ver com esse seu ambiente. Todos os alunos querem aprender coisas que tenham a ver com a sua vida. Mas a grande crítica dos alunos é que as coisas que estão lá não têm a ver com a sua vida.

Houve uma estatística sobre os alunos que deixam a escola, e lá diz que a grande razão pela qual os alunos deixam a escola não é porque não tenham dinheiro para pagar, mas é porque a escola é muito chata. E por que a escola é chata? Porque não tem a ver com os problemas concretos que as crianças e os adolescentes vivem.

Mundo Jovem: E sobre o genocídio da juventude brasileira que é muito grande nas periferias?

Rubem Alves: Eu lamento muito, não sei o que dizer. O fato é que a gente está no momento com uma série de problemas para os quais nós não temos solução.

A criminalidade hoje é uma realidade completamente diferente do que era há 30 anos. Antigamente a criminalidade era o marido que matava a esposa, por infidelidade; era um que roubava lá, que roubava cá, eram atos individuais. Hoje, o crime se constitui numa empresa riquíssima. É um negócio muito bem organizado. Então não é mais aquele pobre que assalta o outro. São empresas que se especializam em ganhar dinheiro. Logo, o crime, não é coisa de gente pobre, é coisa de gente rica. O que fazer? Eu não sei de ninguém que tenha uma resposta para isto. Então, eu me sinto assim vivendo num mundo cheio de problemas para os quais simplesmente não tenho resposta.

Mundo Jovem: Em termos de esperança, o que dizer para os professores e para os jovens?

Rubem Alves: Olha, as pessoas, nas coisas que elas crêem, têm sempre uma dose de esperança. A esperança que eu tenho hoje é muito diferente da esperança que eu tinha há 30 anos, por exemplo.

As pessoas me perguntam: você tem esperança de que estas coisas que você acredita venham a se realizar? E eu respondo a elas: há muito tempo que não faço esta pergunta. Não estou me interessando pela colheita. Só estou me interessando pela semeadura. Se eu tenho um desafio e quero ver se a minha resposta vai dar certo, simplesmente faço o que é correto. Eu faço a minha semeadura, fico feliz com minha semeadura e vamos dizer que a colheita a Deus pertence, não está nas minhas mãos. O que importa é a gente ser honesto com a gente mesmo, viver a vida com integridade e é isso o máximo que a gente vai fazer. E se a coisa vai acontecer ou se não vai acontecer, continua semeando.


Abençoada seja a paixão de ensinar

Conte-me, e eu vou esquecer. Mostre-me, e eu vou lembrar.
Envolva-me, e eu vou entender. (Confúcio)

Vivemos tempos em que é permitido pisotear flores, ignorar pérolas, subjugar pessoas e a mãe natureza. Mas, em especial, também é um tempo em que é permitido menosprezar aquelas e aqueles que, heroicamente, tecem histórias suas, e de outros, construindo o mundo da vida e da sabedoria. Estes são tempos em que aqueles que cuidam, não são cuidados. Aqueles que educam, não são valorizados. Aqueles que amam, sofrem com o deboche e o desprezo daqueles que não acreditam mais no amor.

Somos movidos pelas nossas utopias e paixões. Mas a realidade cotidiana é sempre dura, reveladora e cheia de contradições. A vida daqueles que denominamos mestres, educadores, professores, infelizmente, também é triste e desmotivada. Sim, logo aqueles e aquelas dos quais a sociedade ainda espera muito (saber, sabor e sabedoria). Pouco valorizados e feridos em sua dignidade, mas resistem bravamente. A escola tornou-se lugar de onde se espera muitas soluções. Muitas delas estão muito além das demandas de ensino-aprendizagem e das competências a partir das quais a mesma se organiza.

Os professores não deveriam, mas já se acostumaram. Acostumaram a ganhar baixos salários. Acostumaram a ter de trabalhar 60 horas semanais para garantir mais dignidade à sua família. Acostumaram a aceitar todo o tipo de pressão que a sociedade e os governos exercem sobre seu ofício e sobre a escola. E agora, pasmem, alguns já estão se acostumando com a desesperança, que pode ser lida na expressão de seus rostos e de seus olhares. Uma constatação triste, pois sempre foram e são vistos pelos adolescentes e jovens como um alento da esperança.

Nossos professores e nossas professoras estão doentes e estressados. Cuidaram, encaminharam e salvaram vidas alheias, mas não dedicaram o devido tempo para cuidar de sua própria vida. Como contemporiza a escritora Marina Colasanti, “eu sei que a gente se acostuma, mas não devia. A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto. E a lutar para ganhar o dinheiro com que paga. E a ganhar menos do que precisa. A gente se acostuma para poupar a vida, que aos poucos se gasta, e que, de tanto acostumar, se perde de si mesma”.

Apesar de já terem se acostumado com tantas coisas, a maioria mantém sua missão de semear esperanças. Converse com algum deles e você verá como resistem para não virarem meros números, como quer a burocracia estatal, nas mais recentes investidas, questionando tamanho das salas x número de alunos x carga horária de professores. Muitos deles já pensaram em desistir, mas não conseguiram. “Desistir… eu já pensei seriamente nisso, mas nunca me levei realmente a sério; é que tem mais chão nos meus olhos do que cansaço nas minhas pernas, mais esperança nos meus passos, do que tristeza nos meus ombros, mais estrada no meu coração do que medo na minha cabeça” (Geraldo Estáquio de Souza). Ainda bem que são tomados por uma imensa paixão de ensinar.

Nei Alberto Pies,
professor e militante de direitos humanos,
Passo Fundo, RS.
Endereço eletrônico: neialberto@gmail.com

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