Ainda faltam estágios no Brasil

 

Crescem vagas e efetivações, mas é grande o déficit de oportunidades

Se por um lado o mercado está saturado, também há áreas em que ele está altamente favorável. É o caso da Engenharia. Segundo o diretor do Departamento de Recolocação Profissional do Sintracon-SP (Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias da Construção Civil de São Paulo), Antonio de Souza Ramalho Junior, a área está carente de profissionais formados, o que reflete diretamente no setor de estágios.“É necessário um engenheiro formado para passar a experiência para o estagiário. Com a falta de profissionais formados as empresas também não conseguem empregar estudantes”, diz. Isso resulta num número razoável de vagas não preenchidas.

Reflexo desta tendência de mercado foi sentido pela Unisanta (Universidade Santa Cecília), em São Paulo. De acordo com informações da Central de Estágios da instituição, até o final de novembro passado, o número de solicitações de empresas da Capital, Região do ABCD e Baixada Santista a procura de recém-formados e alunos dos últimos anos das diversas áreas de Engenharia (civil, elétrica, eletrônica, de computação, mecânica e química) aumentou em 40% em relação ao ano de 2006.

Esse “apagão” de engenheiros, na opinião do diretor do Sintracon-SP, resulta da pouca quantidade de estudantes que termina o curso, por não agüentar o longo tempo de duração (cinco anos) e a pesada jornada de estudos. “Um estudante de engenharia precisa de mais anos para se formar, o que pode gerar um maior índice de desistência. Além disso, nos primeiros anos do curso, os estudantes de engenharia passam praticamente o dia todo na sala de aula”, afirma Ramalho Junior.

Para ele, o ideal seria que os estudantes, além de assistirem às aulas, mantivessem contato com sindicatos de engenheiros para que eles pudessem ter a vivência do dia-a-dia da profissão e dos problemas legais que podem enfrentar.

Entretanto, a grade curricular do curso de Engenharia não permite que os alunos tenham essa vivência prática da profissão. “Defendo uma mudança na carga horária do curso, mesclando atividades teóricas e práticas. A parte prática, porém, não deveria se restringir aos laboratórios, como é o que acontece nas universidades. Os alunos devem chegar ao canteiro de obras”, declara Ramalho Junior.

Pesquisas realizadas por entidades brasileiras ligadas à inserção do estudante no mercado de trabalho revelam que apesar do crescimento no número de vagas de estágio e das efetivações de estudantes, ainda faltam oportunidades para acolher os jovens aptos a trabalhar no Brasil. Com isso, a experiência do primeiro emprego é, muitas vezes, adiada ou não acontece em determinadas áreas de estudos.Em janeiro deste ano, o CIPEE (Centro de Incentivo Profissional ao Estudante a Empresa) divulgou uma pesquisa, com base em informações do ano de 2007, que aponta aumento de 87% no número de vagas de estágio e de 15% nos casos de efetivação de estagiários em relação ao ano anterior.

Segundo o representante da entidade e especialista em gestão corporativa e recursos humanos, Werner Kulgelmeier, esse crescimento de oportunidades reflete amadurecimento do setor empresarial e dos estudantes, que passaram a valorizar mais o estágio como escola de formação profissional. “Esses dados mostram que tanto as empresas têm melhorado sua postura em relação a ‘escalar’ mão-de-obra inexperiente para seu time, como os estudantes estão mais conscientes da importância de ter um aprendizado prático antes de sua formação”, resume ele.

Na opinião do especialista, parte dessa mudança decorre de muitas companhias terem colhido bons frutos ao recrutar estagiários. “Isso serve como prova de que ao invés de simplesmente explorar mão-de-obra barata, vale a pena investir no estudante. Por outro lado, muitos estudantes observaram essa mudança no cenário corporativo e, mais motivados, passaram a se comportar melhor, mostrar maior interesse nessa vivência e deixar de encarar o estágio como extensão da faculdade”, diz Kulgelmeier.

Ainda que os dados das CIPEE revelem uma adequação do setor, outro levantamento, feito pela Abres (Associação Brasileira de Estágios) aponta a necessidade de número quatro vezes maior de vagas para dar conta da atual demanda de alunos. “Hoje, há em torno de quatro milhões de jovens no Ensino Superior e apenas 715 mil vagas de estágio em todo o país”, afirma Carlos Henrique Mencaci, presidente da Abres.

Mencaci defende que há potencial para que, com as empresas já instaladas no Brasil, seja possível dar conta da demanda de estudantes. Basta que o empresariado se mostre mais propenso a absorver estes jovens. E o problema está justamente em convencer as empresas. “Apesar de cada vez mais companhias abrirem as portas para tal mão-de-obra, há muita resistência em contratar estudantes”, lamenta ele.

A explicação para tanta resistência decorre tanto de experiências negativas anteriores, como do preconceito em relação à maturidade dos jovens. Segundo Mencaci, muitos empresários ainda desconfiam do grau de responsabilidade e compromisso dos estudantes. “Os erros mais comuns dos estagiários são a falta de seriedade, a vergonha de demonstrar que não sabem fazer determinadas tarefas, a repressão da curiosidade e a falta de interesse em aprender”, diz.

As empresas, por sua vez, também têm sua parcela de culpa nessa história. “Muitas erram ao manter programas de estágio que não oferecem nada mais de que trabalhos primitivos de escritório, oportunidades que frustram os estudantes e podem levá-los até ao abandono do estágio”, completa Mencaci.

Como melhorar o cenário?

Hoje, a Lei de Estágio garante flexibilidade para as empresas na contratação dos estudantes. Assim, as companhias que investem nessa idéia não são obrigadas a pagar 13º salário, férias, INSS, nem benefícios como vale-transporte ou vale-refeição para o estagiário. Tais medidas servem como estímulo para criação de vagas. No entanto, não são suficientes.

Uma das saídas sugeridas pelos especialistas para elevar o número de oportunidades no setor seria estimular a criação de vagas em pequenas e médias empresas. Hoje, as Micro e Pequenas Empresas estão fora deste quinhão. Segundo informações do Sebrae (Serviço Brasileiro de Apoio Às Micro e Pequenas Empresas), as companhias de pequeno porte representam 99% do total das 5,5 milhões de empresas que existem no País e empregam um contingente de 26 milhões de trabalhadores, o que representa 56% da força de trabalho do Brasil.

Para aumentar o número de vagas nestas empresas, porém, seria necessário uma grande campanha. “Creio que seria possível estimular a contratação de universitários nas empresas pequenas e médias ao levar para elas o conhecimento dos casos de sucesso de grandes empresas que obtiveram ótimo desempenho com a inclusão dos estagiários”, aposta Kulgelmeier.

Mencaci, por sua vez, acredita que estas empresas só se sensibilizariam para a questão caso obtivessem algum tipo de orientação para a contratação e aproveitamento de estudantes em seus quadros de funcionários. “Quando falamos de empresas de tamanho reduzido, muitas vezes, não há nelas o setor de treinamento adequado para preparar e aproveitar o estagiário”, explica.

Na opinião do presidente do Nube (Núcleo Brasileiro de Estágios), Seme Arone Junior, além de ampliar o leque nas pequenas e médias empresas também é necessário conscientizar os gestores sobre o perfil de mão-de-obra que contratam. “Tem muito programa que dá errado porque o gestor contrata estudante e dá a ele atribuições de um profissional. É preciso orientar o gestor que o estagiário não tem experiência e que caberá à empresa investir no seu potencial”, afirma ele.

Kulgelmeier complementa que as empresas restringem as vagas por não gostarem do perfil dos estagiários, acreditam que eles não vão corresponder às suas expectativas. A expectativa em relação ao estagiário, no entanto, deve estar ligada ao compromisso e ao interesse do estudante em aprender e evoluir, não em executar uma tarefa digna de um profissional e, ainda, com excelência.

A coordenadora de relacionamentos de mercado do IEL (Instituto Euvaldo Lodi), Emmanuele Spaine, não acredita que as empresas tenham medo de contratar estagiários, mas concorda com os especialistas quando diz que muitas são resistentes em trabalhar com tal mão-de-obra. “Na verdade, há uma resistência por causa de comentários de outras empresas de que seu estagiário não fazia o serviço direito. Isso gera uma relutância em alguns empresários, mas não na maioria”, acredita ela.

Emmanuele acrescenta ainda que o Paraná, onde está localizado o IEL, promove ações voltadas para incentivar que as empresas invistam na contratação de estagiários a fim de mudar a mentalidade do empresariado. As ações estão atreladas à missão do IEL em promover a interação entre a indústria e a universidade, já que o órgão faz parte da CNI (Confederação Nacional da Indústria).

30% dos estagiários atuam fora da área

A falta de vagas e o receio das empresas em contratar estagiários fazem com que, muitas vezes, os estudantes busquem experiência profissional em oportunidades pouco ou nada relacionadas à sua área de estudos. Outra pesquisa realizada pelo CIPEE constatou que 30% dos estudantes que ocupam algumas das 715 mil vagas de estágio existentes no Brasil atuam fora de sua área.

É o caso do estudante de Administração com ênfase em Comércio Exterior, Gilson Getúlio da Silva, de 20 anos (na foto à esquerda). Ele foi contratado por uma grande empresa como estagiário para dar suporte ao usuário pela Internet. Cansado de procurar vagas sem sucesso e colecionar reprovações em dinâmicas de grupo, ele aceitou a oferta.

“Desde os primeiros semestres da faculdade, as vagas para meu curso exigiam fluência no inglês, algo que não tenho. Apesar do curso de Administração ser um dos que mais oferece vagas de estágio, acho que as empresas são muitos exigentes e o mercado muito concorrido”, diz. Segundo um levantamento da Abres, as áreas que mais oferecem vagas de estágio no Brasil são: Administração de Empresas (41,5%); Comunicação Social (14%); Informática (10,2%) e Engenharia (9%).

Hoje, Gilson nunca esteve tão longe e ao mesmo tempo tão perto de realizar seu sonho. Ele, que sempre quis trabalhar na Administração de uma empresa, vislumbra a oportunidade na companhia onde está hoje, embora faça parte do quadro de funcionários como efetivo na área de suporte, onde começou como estagiário.

Longe de sua formatura, porém, o estudante ainda sonha em conseguir uma colocação mais próxima a sua área de estudos. “Acredito que por estar dentro da empresa tenha mais facilidade em disputar uma vaga em minha área quando a oportunidade surgir.”

Fonte: Universia

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