Falta mão-de-obra qualificada (21-03-2008)

A crescente escassez de profissionais qualificados no mercado de trabalho doméstico está obrigando a Companhia Vale do Rio Doce a lançar uma campanha global de recrutamento para arregimentar pessoal especializado nos EUA, Inglaterra, Austrália e Canadá. A previsão é de 62 mil contratações nos próximos cinco anos.Essa é a iniciativa mais audaciosa já tomada por um conglomerado brasileiro em matéria de oferta de emprego, e é mais uma das conseqüências da globalização da economia. Com o extraordinário crescimento da produção industrial chinesa, nos últimos anos, o preço das commodities no mercado internacional disparou, abrindo caminho para a expansão dos setores de mineração, siderurgia, petróleo e equipamentos de transporte pesado. Desde então, as empresas mais competitivas desses setores criaram milhares de novos postos de trabalho e, de forma cada vez mais agressiva, vêm disputando trabalhadores preparados para ocupá-los.

Entre as empresas que competem com a Vale nessa disputa estão a Companhia Siderúrgica Nacional, Companhia Siderúrgica do Atlântico, Siderúrgica Barra Mansa, ArcelorMittal, Caterpillar, Volvo, Volkswagen e o conglomerado liderado pelo empresário carioca Eike Batista, além das mineradoras rivais que atuam em Carajás – a BHP e a Rio Tinto. Todas vêm publicando anúncios em inglês, em busca de profissionais qualificados de nível técnico superior. As empresas também vêm contratando trabalhadores aposentados e procurando atrair profissionais qualificados da Petrobrás.

A disputa se tornou tão acirrada que elevou o nível médio salarial. Um soldador, por exemplo, hoje tem um ordenado inicial entre R$ 1,2 mil e R$ 2,1 mil. Nas escolas do Sesi e do Senac, os formandos são disputados acirradamente pelos empregadores. Geólogos e engenheiros nunca tiveram salários tão altos como agora. Para reter trabalhadores preparados, as empresas vêm aumentando salários, ampliando a concessão de benefícios sociais e criando programas de qualificação e treinamento com recursos próprios.

Como os candidatos a cargos de nível técnico são egressos da rede pública de ensino fundamental, muitos se apresentam com formação deficiente, tendo de passar por um processo de reforço em português e matemática antes de serem admitidos. Para serem treinados no exterior, trabalhadores qualificados também têm de fazer cursos intensivos de inglês ou alemão. E, para preparar mão-de-obra para funções específicas e complexas e acelerar o treinamento de trabalhadores mais jovens para ocupar gerências intermediárias, as empresas estão criando universidades corporativas, geridas por instituições privadas de ensino superior. “Montamos grades curriculares específicas para nossas necessidades, como engenharia ferroviária, mineração e porto”, diz Maria Gurgel, diretora de Planejamento de Recursos Humanos da Vale.

Todas essas iniciativas, contudo, não eliminam o risco de um “apagão de mão-de-obra”, uma vez que a demanda de profissionais qualificados deve continuar sendo maior que a capacidade de formação das escolas de ensino básico, dos colégios técnicos e das unidades do Sesi e do Senac. Somente para os quatro grandes projetos de usinas siderúrgicas que deverão sair do papel nos próximos dois anos, a estimativa é de que será necessária a contratação de cerca de 1,6 mil engenheiros. Mantendo-se o nível de crescimento do País, como mostram levantamentos feitos pela Confederação Nacional da Indústria, outros grandes conglomerados terão de seguir o exemplo da Vale, promovendo campanhas de recrutamento de trabalhadores qualificados no exterior.

Essa situação apenas confirma que o maior obstáculo a um crescimento da economia brasileira em ritmo chinês continua sendo as deficiências do nosso sistema de ensino. Após vencer a batalha da universalização do ensino básico, com 98,5% das crianças entre 7 e 14 anos matriculadas no ensino fundamental e 87% dos jovens entre 15 e 17 anos matriculados no ensino médio, a prioridade máxima é a melhora da qualidade do ensino. Só assim o Brasil poderá sair da situação paradoxal em que se encontra, onde as empresas precisam ampliar seus quadros de trabalhadores, mas não encontram pessoas preparadas entre milhões de desempregados.

Fonte: http://txt.estado.com.br/editorias/2008/03/21/edi-1.93.5.20080321.3.1.xml

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