Quem são os jovens de hoje?

Via: Universia

Os valores importantes para a juventude atual diferem dos de 30 anos atrás. Saiba como os professores estão enfrentando essa situação

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Recente pesquisa feita pela MTV brasileira, o Dossiê Universo Jovem, com participação de jovens de 15 a 30 anos das classes A, B e C de São Paulo, Salvador, Brasília, Rio de Janeiro e Porto Alegre, apontou resultados significativos. Beleza virou de uma vez por todas um valor assumido, importante arma de conquista, e ganhou a atenção dos jovens: 37% definiram como principal característica de sua geração “ser vaidosa/preocupada demais com a aparência“.

Além disso, 8% declararam que “certamente estariam dispostos a ser 25% menos inteligentes se pudessem ser 25% mais bonitos”, e outros 7% declararam que “provavelmente abririam mão de 25% de sua inteligência em troca da mesma porcentagem em beleza”.

As respostas dão uma idéia de como está o perfil da juventude brasileira atual. Não se pode generalizar, mas, de uma maneira geral, é possível avaliar os valores considerados importantes para os jovens. Estar na universidade é questão de status. Adquirir conhecimento está em segundo plano.

Mudança de público

Com este perfil de alunos diferentes do passado, como fica a relação aluno-professor? “Na verdade, a relação interpessoal é relativa, tem um limite. Acho que o mais importante é que se consiga motivar os alunos para que possam fazer as coisas pedidas e respeitar o professor. Hoje, o desafio é motivar o estudante para que ele acredite em tudo o que está acontecendo e não entenda o curso apenas como uma preparação para o mercado de trabalho”, aponta o professor de Comunicação Social da São Marcos (Universidade São Marcos) e da USP (Universidade de São Paulo), Luiz Fernando Santoro.

Já a professora do mestrado em Educação da PUC-Minas, Maria Inez Salgado de Souza, acredita que há uma crise na relação entre professores e alunos em geral, no sistema público e no privado. “No Ensino Básico essas crises de relacionamento se refletem em atitudes mais agressivas, que chegam até uma situação-limite. Nos sistemas privados de ensino o aluno já é mais contido, mas mesmo assim eu acredito que há uma dificuldade de ordem diferente. Não é a questão do respeito, mas do valor que é atribuído ao professor”, observa.

Os alunos de escolas privadas consideram o professor apenas uma ponta do sistema. Como não é visto como peça-chave, o estudante acha que não deve tanto respeito ao professor. Mas por outro lado, acha que o docente deve a ele várias obrigações. “No Ensino Superior há alguns conflitos em termos menores pelo fato do aluno já ser adulto e vir de outros momentos e segmentos que o educaram. Acredito que ao chegar na universidade há um fator de aumento da compreensão e empatia entre professor e aluno. Mas há casos também de conflitos, por exemplo, de aluno pedir para o professor ser mandado embora”, explica Maria Inez.

Há 30 anos…

Antigamente, os valores de disciplina e respeito pelos professores, os “mestres”, eram muito cultuados pela sociedade. O tratamento era na base do “senhor”, “senhora” e não era admitido chamar um mestre por “você”. De uma forma ou de outra, a relação entre alunos e professores era mais distante se compararmos aos dias de hoje. É claro que a maioria dos professores não se incomoda de ser chamada por “você”. O grande problema hoje é o desrespeito que essa informalidade pode ter acarretado.

“A primeira coisa que mudou, na minha opinião, é que havia uma relação de respeito um pouco maior. Além disso, como não existiam tantas universidades e nem tantos professores, a impressão que eu tenho é que aqueles que estavam na carreira acadêmica tinham um status muito maior junto aos alunos”, aponta Santoro.

Hoje, com a facilidade de se abrir cursos de graduação, surgem muitas novas faculdades e, por esse motivo, pode haver pessoas de diferentes formações dando aula, nem sempre de qualidade comprovada, segundo Santoro. “A diferença principal há 30 anos é que os professores eram ídolos respeitados, talvez por não existirem tantos e nem tantas faculdades. Tem gente que vai dar aula e não tem noção de didática, não tem a menor experiência acadêmica e nem profissional, e dar aulas vira uma opção pela necessidade. Deste jeito é muito difícil esperar que os alunos o respeitem”, completa o professor da São Marcos.

“A sociedade atual olha os professores com outros olhos, como uma peça da engrenagem que está processando diplomas para quaisquer alunos que possam pagar. Com isso, ele se torna um objeto e não um sujeito daquilo que ele faz e ensina. Isso realmente faz com que se diminua o valor de um mestre, o valor de uma pessoa capacitada a ensinar”, destaca Maria Inez.

Como lidar

Que lidar com determinadas classes não é fácil, quase todo professor concorda, mas como fazer com que os momentos em sala de aula não se tornem uma guerra? “A primeira coisa é respeitar os estudantes, não transformá-los em clientes que têm sempre razão e muito menos considerá-los incompetentes, achar que eles passaram por um vestibular fácil e que jamais serão bons profissionais”, afirma Santoro.

Já a professora Maria Inez acredita que essa é uma questão bastante difícil para a qual não há receita mágica. “Diria que, na verdade, isso não tem uma resposta pronta. Cada professor tem de uma forma de enfrentar esse tipo de situação”.

É importante que o professor não se influencie pelo mau comportamento da sala e deixe de transmitir conhecimento, afinal, esse é o papel dele. Se ele estiver à frente de 80 alunos que não querem prestar atenção, mas mesmo assim cumprir sua função, conseguirá ser respeitado. “Procurar dar a melhor aula, mesmo para alunos que muitas vezes não estão nem aí, esse é o grande desafio. A gente tem que exigir sempre o melhor, mostrar os problemas, os erros. É um trabalho desgastante por parte do professor, mas muito válido”, comenta o professor Santoro.

Além de estimular os alunos, o professor precisa de um motivo pessoal para não pensar em largar tudo. Conseguir isto também é muito complicado. O professor que trabalha dando aulas pela manhã, tarde e noite pode ter dificuldade em ser motivado, por conta da rotina. Como sugestão a esse problema, a professora do mestrado em Educação da PUC-Minas pensa que o corpo docente precisa ser mais bem assistido e amparado. “Para o futuro e para já, todas as instituições precisam pensar em um apoio ao docente. Um centro que pode ter vários tipos de suporte: institucional, psicológico, emocional e até de qualificação para lidar com situações inteiramente novas, porque na verdade isso tudo é um reflexo do que se está passando na sociedade. Não precisa ser psicóloga para saber que a sociedade está enfrentando aquilo que Freud chamou de “o mal-estar da civilização” refletido diretamente na escola e, por conseqüência, no trabalho profissional do professor”, finaliza Maria Inez.

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