Worklover trabalha demais e é feliz


Débora Aguiar comanda um escritório que cria e executa projetos pelo Brasil e no exterior

Rosana Ferreira

Trabalhar muitas horas por dia e passar fins de semana mergulhado no trabalho pode, sim, trazer prazer e satisfação. Esse perfil de profissional existe e até já ganhou uma definição própria: worklover (pessoa que ama o trabalho). A tese é defendida pelo Laboratório de Psicologia do Trabalho da Universidade de Brasília (UnB), que, por meio de estudos e pesquisas concluiu: o trabalho é prazeroso. Esse conceito é um contraponto à idéia de que toda pessoa que trabalha demais é workaholic, isto é, um viciado em trabalho, que tem sua vida profissional e pessoal afetada de forma negativa.

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“Existe uma confusão na relação entre trabalho e prazer, que define como viciados todos que trabalham demais. Nos nossos estudos ao longo de 30 anos, sempre que fazemos diagnóstico de trabalho encontramos pessoas apaixonadas pelo que fazem, e isso é uma constatação de uma relação sadia com o trabalho”, conta o professor Wanderley Codo, membro e pesquisador do Laboratório de Psicologia do Trabalho da UnB, autor do livro Por uma Psicologia do Trabalho (Casa do Psicólogo).

Diferenças
Apesar dos dois perfis apresentarem uma característica em comum – a total dedicação ao trabalho -, há diferenças gritantes entre worklovers e workaholics. O primeiro gosta do que faz e se envolve com aquilo que está fazendo. “Essa dedicação de horas ao trabalho não se traduz em vício nem traz grandes prejuízos à sua vida pessoal”, explica Codo. Segundo ele, o worklover sabe que pode transformar o mundo, além de sentir e viver essa transformação. Por exemplo, o trabalho do marceneiro permite que ele transforme árvores em móveis. Com isso, ele muda o mundo e as outras pessoas que usam esses móveis. Portanto, são profissões que permitem que o trabalhador acompanhe todo o processo, do começo ao fim. “Muitas empresas com visão moderna estão banindo as linhas de montagem, em que o funcionário executa uma única parte do processo, sem ver o resultado final”, explica.

“Um novo desafio é o que mais me motiva. A criação e o projeto me dão, sem dúvida, muito prazer, mas o planejamento das metas, de cada etapa de desenvolvimento e o resultado final, com o olhinho do cliente brilhando, são aspectos insuperáveis. Executamos praticamente tudo que planejamos, e isso é uma benção”, relata a arquiteta Débora Aguiar, de São Paulo, uma verdadeira worklover. Ela comanda um escritório responsável por projetos divididos em arquitetura e decoração de interiores residenciais, corporativos, comerciais e imobiliários em vários estados brasileiros. Além disso, marca presença em projetos fora do Brasil (Estados Unidos, Canadá, Argentina, Angola, Emirados Árabes e África do Sul) e nas principais mostras do setor, como Casa Cor.

Ao contrário do workaholic, o worklover tem vida própria, ou seja, namora, pratica esportes, convive com a família, viaja, faz programas sociais nos fins de semana. Débora encontra tempo para colocar a leitura em dia, ir ao cinema, fugir para a natureza e está até aprendendo a velejar com o marido, Beto Pandiani.

Outro exemplo é Roberto Chade, 36 anos, presidente da Dotz, um programa latino-americano de recompensas na internet. Apesar de administrar cerca de 70 empresas de diversos segmentos que são parceiras do programa e mais de 2 milhões de clientes (consumidores finais), que têm à disposição cerca de 15 mil produtos e serviços como opção de compra, ele não reclama e encontra tempo para a mulher, dois filhos pequenos (4 e 6 anos) e ainda pratica esportes. Acorda às 5h da amanhã, trabalha um pouco em casa, toma café com a família, faz ginástica e vai para o escritório, onde passa o dia. Procura chegar em casa por volta das 20h para encontrar os filhos ainda acordados, depois termina as pendências do dia e vai dormir por volta das 23h. “Mas fico ligado 24 horas por dia. É comum acordar à noite com alguma idéia e voltar a trabalhar, ou pensar em algo do trabalho no chuveiro, num jantar”, conta.

Já o workaholic mantém uma relação negativa com o trabalho. “É o indivíduo que foge da realidade de sua vida por meio do trabalho. E isso acontece em qualquer tipo de vício, como o da bebida”, explica Codo. Em geral, esse indivíduo passa muitas horas na empresa, faz horas extras, não desliga do trabalho fora da empresa, vive estressado, tem problemas de saúde, não encontra satisfação na sua vida sexual, afetiva e familiar. Tem dificuldades de se relacionar, não faz muitos amigos e, ao invés de tentar resolver essas questões, “mergulha” no trabalho, um território conhecido, onde não encontra tais dificuldades. Para explicar essa relação, Codo faz uma analogia com a comida: “Comer dá muito prazer se a pessoa tiver uma bela refeição, mas há outros indivíduos que não param de comer”.

Especial para Terra
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