Má qualidade do sono afeta rendimento de vestibulandos

Computador
O inimigo do sono

Usar o computador por muito tempo durante a noite pode afetar a qualidade do sono e causar sonolência diurna. Segundo a pesquisa de mestrado da psicóloga Gema Galgani de Mesquita Duarte, recém-apresentada na Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp (Universidade de Campinas), os jovens que têm esse hábito são mais suscetíveis a alterações no humor, diminuindo o seu estado de atenção e também a capacidade de memorização e absorção do conhecimento. “A interatividade e a luz do computador retardam o hormônio do sono, a melatonina. Desta forma, o usuário perde a melhor fase do sono, já que a qualidade da soneca não é a mesma na parte da manhã”, alerta.

Uma noite bem dormida é fundamental para os adolescentes, embora eles a considerem perda de tempo. “Essa é uma fase de transição, marcada por conflitos e adaptação a novas funções. Assim, o equilíbrio psíquico e emocional é importantíssimo e o sono desempenha um papel fundamental nesse processo”, explica. “Dependendo do horário em que o sono é interrompido, é reduzido justamente o sono de ondas lentas, responsável pelo hormônio do crescimento”, completa.

Portanto, a especialista recomenda que os adolescentes evitem utilizar o computador durante a noite e, quando necessário, restrinjam o uso a no máximo duas horas. “O próprio Bill Gates, conhecendo os problemas que o PC pode causar no desenvolvimento do jovem, não deixa seus filhos ficarem em frente da máquina mais de uma hora por dia”, conta. “É preciso dormir bem para viver e para estudar bem”, conclui Gema.

Larissa Leiros Baroni – VIA: Universia

Um dia tem 24 horas: oito horas para os estudos, outras oito para o sono e as restantes reservadas para o lazer. Na teoria, essa divisão pode até parecer equilibrada e coerente, porém, na prática, não é isso que acontece. Quantas vezes você viu o dia acabar sem conseguir fazer tudo o que precisava ou desejava? É, mas ainda não inventaram nenhum mecanismo capaz de paralisar ou de retardar o tempo de rotação da Terra. Por isso é preciso se organizar e fazer com que essas poucas horas se tornem produtivas, sem comprometer, é claro, nenhuma das atividades vitais para o bem-estar do corpo e da mente.

E aí, como você divide o seu tempo? Em época de vestibular, não dá para negar que grande parte da rotina é destinada aos estudos. Afinal, são milhares de teorias, centenas de fórmulas e muitas obras literárias para serem absorvidas em poucos meses. Sem contar o tempo que o 3º ano do Ensino Médio demanda com as provas e as atividades extra-aula. E, por vezes, estudantes acabam passando madrugadas em cima dos livros, a fim de ganhar tempo e disparar na frente da competição. O problema é que a má qualidade do sono pode acabar sendo o seu pior inimigo nessa maratona.

A privação do sono, segundo o professor do departamento de Fisiologia da UFPR (Universidade Federal do Paraná) Fernando Mazzilli Louzada, acaba reduzindo os níveis de atenção do estudante, comprometendo o aprendizado e, conseqüentemente, seu rendimento. Além disso, o sono tem outra característica muito importante no processo do ensino, ele é um dos principais responsáveis pela consolidação dos novos conhecimentos. “Um jovem precisa dormir, em média, entre 8 e meia e 9 horas para recuperar todas as suas energias e encarar os desafios do próximo dia”, alerta.

Mas nem sempre é possível atingir essas médias. As pesquisas revelam que grande parte dos adolescentes urbanos, ou seja, aqueles que têm acesso às tecnologias modernas, estão perdendo diariamente uma hora ou uma hora e meia de sono. Caio Eduardo Beda de Oliveira, 19 anos, é um dos milhares de pré-vestibulandos que fazem parte dessa estatística. O estudante reserva apenas cinco horas do seu dia para o sono. “Não posso fazer muito para mudar isso, já que tenho que acordar às 5h00 para ir ao cursinho e só posso dormir à meia noite – horário em que chego da escola do Ensino Médio”, afirma.

Para tentar driblar o sono, muitos estudantes acabam não respeitando os limites do próprio corpo. Quantas vezes você não se entupiu de energéticos, pó de guaraná ou cafezinhos para se manter acordado até altas horas da madrugada ou nas primeiras aulas do dia? É, esse até pode ser um truque para manter o corpo acelerado no momento em que ele pede descanso. Porém não funciona para o processo de aprendizado. “Para aprender é preciso estar centrado e quando toma energético a pessoa fica agitada, não conseguindo se concentrar”, explica o professor de História do Cursinho da Poli, em São Paulo, Elias Feitosa de Amorim.

Caio também sente o peso da sonolência, mas para contornar essa incidência nada melhor do que tirar uma soneca nas horas vagas. “Para garantir um bom lugar no cursinho tenho que chegar uns vinte minutos antes de começar as aulas, e aí aproveito esses preciosos minutos para descansar os olhos. Além disso, sempre que possível, acabo dormindo na parte da tarde”, diz Caio. “Não posso negar, no entanto, que o sono está sempre atrás dos estudos e das demais atividades”, completa.

Um ritmo que só contribui para a diminuição da concentração e para o aumento da tensão. “Além da rotina estressante dos estudos, o aluno sofre uma pressão emocional, familiar e até do mercado de trabalho. E para vencer essa batalha é preciso estar preparado intelectual, fisica e psicologicamente”, assegura Amorim. Desta forma, ele orienta que os vestibulandos respeitem os horários do sono, do lazer e do estudo. “Quando um começa a comer o espaço do outro é sinal de prejuízo”, garante. A palavra chave do sucesso do aprendizado é o equilíbrio.

Em que horário você rende mais?

Enquanto alguns alunos preferem estudar na parte da manhã, outros, mesmo dormindo as recomendadas nove horas de sono, não conseguem se concentrar nesse horário. Essa preferência, de acordo com o professor da UFPR Fernando Louzada, está diretamente relacionada ao rendimento do estudante. “Algumas pessoas são mais matutinas, outras mais vespertinas”, afirma. “O que acontece na adolescência é que o matutino fica menos matutino e o vespertino fica mais vespertino, já que nessa fase existe uma tendência ao atraso”, explica. Ou seja, é um período em que todos os jovens acabam acordando mais tarde.

Embora as pesquisas apontem que essa característica seja geneticamente influenciada, também está relacionada aos limites e às disciplinas. “Claro que é muito importante ter horários para dormir, para acordar, para comer e para estudar. Mas muitos adolescentes acabam não rendendo tanto quanto poderiam por não conseguirem ajustar seus horários aos impostos”, conta Louzada. “Respeitar essas preferências também é fundamental para o processo de aprendizagem”, alerta.

E você, já sabe qual é o horário em que rende mais? Clique aqui e preencha o teste elaborado pelo Grupo Multidisciplinar de Desenvolvimento e Ritmos Biológicos da USP (Universidade de São Paulo) e descubra o seu perfil.

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Trocando o dia pela noite

Camila Mitye

Trocando o dia pela noiteTrocar o sono pelos estudos pode ser uma armadilha contra o próprio organismo

Você é daqueles que dizem que “rende melhor de madrugada” e prefere estudar à noite? Deixa para estudar na véspera da prova e se entope de guaraná e café? Dorme poucas horas por noite e nem sempre consegue recuperar durante o outro dia? Cuidado! Aposto que você não sabia que trocando o dia pela noite está impedindo uma porção de reações naturais do seu organismo e, ainda mais, estabelecer uma rotina de privação do sono pode levar o cérebro a parar de produzir novas células. Portanto, confira as dicas de como melhorar a qualidade do sono e evitar problemas sérios para seu desempenho nos estudos e para sua saúde.

Danos

Ritmo biológico

Você já deve saber que a quantidade de sono ideal por noite é de sete a oito horas. Mas o que você pode não saber é que trocando algumas dessas horas de sono da noite para o dia você está prejudicando algumas reações bioquímicas essenciais do seu organismo. Uma delas é a produção da melatonina. Produzida por uma glândula cerebral chamada pineal, a melatonina é um neuro-hormônio responsável pelo controle biológico de cada pessoa e sua secreção está relacionada a períodos regulares de claro-escuro (ou seja, dia-noite). Sendo assim, alterando o equilíbrio de claro-escuro da sua rotina você está prejudicando o seu ritmo biológico.

Estresse

É preciso lembrar que o ano pré-vestibular é um período que já envolve estresse pela demanda de pressão recebida pelo estudante, o que acaba comprometendo ainda mais a qualidade e a quantidade do sono de maneira às vezes crônica. Longas horas sem dormir aumentam os níveis de corticosterona, o considerado hormônio do estresse, no organismo. Então você não vai querer aumentar ainda mais o estresse, não é? Se o seu dia de vestibulando já é estressante, preserve suas horas de sono para um período de relaxamento para o seu organismo.

Memória e concentração

É durante o sono profundo que as informações adquiridas durante o dia são armazenadas na chamada memória de longo prazo. E é também uma das regiões envolvidas na formação de memórias no cérebro – o hipocampo – que são mais afetadas pela privação do sono. Assim, se o indivíduo é privado das horas de sono profundo, seu hipocampo é afetado e, conseqüentemente, o armazenamento de memórias também. O que você aprendeu durante as aulas do colégio e as horas de estudo naquele dia podem estar simplesmente “entrando” na sua cabeça, mas sem permanecer lá. Além disso, a concentração e a atenção ficam prejudicadas pela falta de uma noite bem dormida, que provoca também fadiga mental e física, sonolência nas horas erradas e perda de motivação.

Neurônios

Outro dano causado pela insônia forçada é a diminuição da produção de neurônios no cérebro. A situação é tão séria que, mesmo que você re-estabeleça uma rotina saudável e normal de sono, enquanto outras funções do organismo normalizam-se em uma semana, os níveis de produção de células nervosas levam duas semanas para voltarem à normalidade e ainda demandam um grande esforço do cérebro.

Medidas para melhorar e/ou recuperar a qualidade do sono

Ficou chocado com as informações acima? Não precisa se apavorar, ainda dá tempo de recuperar a qualidade do seu sono. Veja o que fazer:

– Estabeleça uma regularidade no horário de dormir e acordar e evite compensar a falta de sono noturno com o diurno.

– Se estiver com dificuldades de dormir ou insônia, não force o sono “rolando na cama”, procure uma atividade relaxante (como uma leitura leve ou ouvir um pouco de música baixa) para tentar provocar o sono natural. Forçar só provoca ansiedade e angústia, afastando ainda mais a possibilidade de cair logo no sono.

– Adicione a prática de exercícios físicos à sua rotina, de forma moderada (duas vezes por semana é o suficiente). Uma atividade física ajuda a adormecer mais rápido, aumenta a quantidade de sono profundo e oferece uma sensação melhor de descanso ao despertar. Mas atenção! Evite fazer exercícios próximos à hora de dormir, pois a alta estimulação do organismo pode prejudicar a qualidade do sono.

– Evite cochilos rotineiros à tarde, depois do almoço. Lembre-se que a maioria das provas de vestibular é aplicada nesse horário e, se o seu organismo está acostumado a relaxar na hora em que é mais cobrado, o seu desempenho e a sua capacidade de se concentrar serão altamente prejudicados durante as provas.

– Evite o consumo de estimulantes (principalmente à base de cafeína como guaraná natural e café depois das 14h00, pois tem vida média no organismo). Tais produtos, assim como o álcool, provocam insônia e ansiedade.

– Faça da hora de dormir uma hora prazerosa, tome um banho em temperatura agradável, faça um lanche leve e deixe seu quarto limpo e confortável para suas próximas horas de relaxamento e descanso mental. Assim, você acordará mais disposto e pronto para enfrentar a maratona de estudos do dia seguinte.

Viu como uma boa noite de sono e outras iniciativas simples podem evitar problemas chatos? Então comece por aí a mudança em sua rotina desregulada. E lembre-se que nada é bom em excesso, nem dormir demais!

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DORMIR PARA APRENDER

Por: Veja – Marcos Todeschini A ciência enfatiza que o sono é essencial à consolidação da memória e ao desempenho intelectual. Ele define até quais são os horários do dia mais favoráveis ao aprendizado
O inventor da lâmpada e do gravador de som, o americano Thomas Alva Edison (1847-1931), cultivava um ideal de noite perfeita. Ela deveria fornecer o máximo de energia para um novo dia de trabalho criativo sem consumir tempo em excesso. Edison pregava os olhos por no máximo três horas seguidas. Ao despertar, avaliava a qualidade da noite anterior e anotava detalhes em um diário.

Leonardo da Vinci (1452-1519) acordava antes do resto da humanidade, mas reservava quinze minutos a cada duas horas para tirar uma soneca. O pintor da Mona Lisa e idealizador do princípio do vôo do helicóptero conseguia assim encarar seus desafios com a mente descansada. Albert Einstein (1879-1955) determinou ser a luz a única constante do universo, mas gostava mesmo era de penumbra. Ele dormia dez horas por noite e, a cada idéia nova, se premiava com uma hora extra na cama.

Intuitivamente, os três gênios perseguiam uma rotina noturna pessoal capaz de prover combustível a suas mentes poderosas. Só agora a medicina está explicando os efeitos notados por Edison, Da Vinci e Einstein. A qualidade do sono afeta diretamente as funções intelectuais e artísticas de modo decisivo, regulando as forças mentais durante o período ativo do dia e armazenando o conhecimento e as experiências valiosas da pessoa enquanto ela dorme.

O efeito do sono, ou da falta dele, sobre a disposição física e mental das pessoas é conhecido desde tempos imemoriais. A medicina está conseguindo agora, em primeiro lugar, explicar a origem físico-química desse efeito.

Mas, principalmente, as pesquisas atuais ajudam a estabelecer um cronograma das horas do dia nas quais a pessoa estará mais apta a aprender. Esse cronograma, claro, depende de como a noite anterior foi aproveitada. Em segundo lugar, está ficando cada vez mais nítido o processo pelo qual o cérebro humano seleciona e armazena os milhares de informações adquiridas durante o dia. Isso se dá durante o sono.

Cada etapa do sono é usada pelo cérebro para estocar determinado tipo de informação. As musicais são gravadas logo nos primeiros minutos. Aquelas ligadas ao pensamento lógico e matemático são registradas durante as etapas finais dos ciclos do sono, marcadas pela movimentação veloz dos olhos sob as pálpebras e permeadas de sonhos. Essa é a chamada fase REM, a sigla em inglês para rapid eye movement.

O alemão Jan Born, da Universidade de Lübeck, coordenador da pesquisa, resume: “Deciframos finalmente o fantástico processo de armazenamento do conhecimento na mente humana”.

Ao longo de um ano, os alemães de Lübeck observaram todas as noites a atividade cerebral de sessenta pessoas enquanto elas dormiam. Com imagens obtidas por meio de aparelhos de ressonância magnética, os cientistas puderam enxergar claramente o processo de consolidação das informações aprendidas durante o dia. Eles mapearam com precisão todo o trajeto de uma informação, desde o momento de sua absorção em estado de alerta até a gravação durante o sono.

A gravação é um processo químico sem o qual os fatos do dia seriam simplesmente apagados. Os pesquisadores descobriram uma faceta extraordinária desse processo justamente na fase de sono REM. Nela, uma substância-chave está com sua atividade reduzida no cérebro.

Esse composto é a acetilcolina, justamente a substância responsável pela retenção das informações no hipocampo, uma região do cérebro onde os dados são armazenados temporariamente e de onde podem evaporar se não forem coletados a tempo para se tornar memória de longo prazo em outra área – o neocórtex. A nova pesquisa mostra com nitidez a trajetória da informação do hipocampo ao neocórtex.

Esse valioso processo só se dá enquanto a acetilcolina está “adormecida”. Sua inércia, ocorrida durante o sono, abre caminho para os neurônios formarem uma rede por meio da qual as informações farão a viagem do arquivo temporário rumo ao depósito duradouro.

O estudo alemão reforça a teoria do sono como fator fundamental da boa memória. Uma nova leva de pesquisas fez avançar ainda mais o entendimento desse processo ao medir os efeitos do repouso sobre o desempenho das pessoas, submetendo-as em diversas fases do dia a testes intelectuais.

Elas são unânimes em mostrar os danos à memória provocados por uma noite mal dormida e como tudo melhora depois de um bom período de descanso. Um grupo de pesquisadores da Universidade Harvard, nos Estados Unidos, traduziu essa situação em números. O estudo de Harvard, apresentado no último congresso da Academia Americana de Neurologia, é o mais abrangente sobre o assunto já feito com voluntários.

Eles foram monitorados ao longo de seis meses. Ao cabo de oito horas seguidas de sono, os voluntários da pesquisa de Harvard lembravam, em média, 44% mais fatos aprendidos no dia anterior em comparação com aqueles privados de sono. “A relação entre sono e memória é de uma clareza geométrica”, diz o pesquisador Jeffrey Ellenbogen, um dos autores do estudo. Uma segunda etapa da pesquisa americana investigou ainda em que medida o sono pode ajudar a atenuar certos problemas de aprendizado.

Ao investigarem a memória durante o sono, os especialistas obtiveram ainda respostas sobre o processo de seleção de informações quando o cérebro está em estado de repouso noturno. Trava-se ali uma competição frenética entre as informações assimiladas. Apenas uma parte delas, afinal, fará a jornada rumo ao arquivo duradouro no neocórtex, cuja capacidade é limitada.

Qual o critério de decisão para separar as informações valorosas o suficiente para ser guardadas daquelas descartáveis? A neurociência hoje pode responder com certeza a essa questão. A resposta é surpreendente. As informações absorvidas quando a pessoa está sob algum tipo de emoção forte são justamente aquelas aptas a conquistar, durante a noite, um lugar definitivo no cérebro.

Por essa razão, as pessoas tendem a se lembrar em profusão de detalhes dos mais lindos momentos da vida, mas também dos mais desagradáveis. A emoção é a chave de entrada das informações no neocórtex. Quando em excesso, a emoção pode ter efeito diametralmente oposto. Razão pela qual as pessoas não se recordam de instantes finais de acidentes ou mesmo reprimem inconscientemente as lembranças de fatos aterrorizantes, como, por exemplo, testemunhar o assassinato da mãe pelo pai.

Conclui o neurofisiologista Flávio Alóe, do Hospital das Clínicas de São Paulo: “O processo de esquecimento durante o sono é tão vital quanto o do armazenamento das informações. Sem ele, o cérebro entraria em colapso”.

Esse conjunto de conclusões sobre o sono derruba definitivamente a velha – e equivocada – teoria segundo a qual sua exclusiva contribuição ao aprendizado seria a de proporcionar ao cérebro um momento de descanso, ao protegê-lo das influências externas.

Com o ocaso da antiga teoria surge uma nova, a da “inatividade” noturna como vital para o armazenamento das informações acumuladas no decorrer do dia. O fisiologista Alfred Loomis, da Universidade Princeton, foi o primeiro a descrever, em 1937, o cérebro noturno como um dínamo em atividade.

Amparado pelo eletroencefalograma, então um exame revolucionário, Loomis flagrou uma intensa atividade elétrica noturna no cérebro de seus pacientes. Sua observação inicial mostrou o sono se desenvolvendo em fases, cada uma com uma freqüência elétrica diferente. Isso permitiria, mais tarde, distinguir as cinco etapas do sono. Apenas recentemente os cientistas começaram a fazer uso das conclusões de sete décadas atrás para entender melhor os caminhos do aprendizado e sua fixação na memória.

As duas primeiras modalidades de memória a ter seus processos desvendados foram a motora (o drible de um jogador, o salto de um atleta) e a espacial (o projeto de um arquiteto). Os alemães ajudaram a colocar mais um tijolo no edifício ao rastrear os mecanismos de fixação da memória intelectual durante o sono.

Outras pesquisas fizeram sintonia fina das descobertas anteriores. Elas centraram suas atenções nos períodos mais indicados ao trabalho mental. São dois, principalmente. Um deles, o da parte da manhã, ocorre mais ou menos duas horas depois do despertar.

Nesse momento o corpo libera uma quantidade maior de hormônios estimuladores dos neurônios. O cérebro chega, então, ao auge de sua atividade – e permanece assim por mais quatro horas. Uma das descobertas mais recentes, feita por um grupo de pesquisadores da Universidade de Buenos Aires, na Argentina, flagrou situação igualmente positiva cerca de doze horas depois do despertar, quando ocorre no cérebro a produção acelerada de um tipo de proteína cuja concentração estimula as conexões entre os neurônios.

Foi possível observar justamente nesse momento – e nas três horas seguintes a ele – uma espécie de replay das informações aprendidas ao longo do dia, fenômeno batizado de “reverberação” pelos cientistas. Afirma um dos autores do trabalho, o neurocientista Iván Izquierdo, argentino radicado no Brasil: “Esse momento de replay é a hora mais favorável para fazer uma revisão de matéria aprendida em outros momentos do dia”.

Certos hábitos noturnos também têm influência – positiva ou negativa – sobre o aprendizado, e os cientistas já sabem como explicar isso. Para 90% das pessoas, o repouso ideal tem a duração de oito horas. É o tempo necessário para concluir cinco ciclos de sono – um padrão favorável tanto ao descanso como à memória.

Há quem alcance o mesmo efeito antes disso, mas é uma minoria. Ainda segundo as pesquisas, o melhor sono para o aprendizado se encerra por volta das 6 da manhã. Por duas razões. Primeiro, porque o corpo está biologicamente “programado” para o repouso até essa hora. A temperatura do corpo está 1 grau Celsius mais baixa. O segundo motivo: quem acorda mais cedo consegue aproveitar todos os picos de aprendizado.

Quem sai da cama por volta das 8 da manhã tem o período favorável à atividade intelectual reduzido em 20%. Há um certo consenso sobre a impossibilidade de compensar mais tarde o tempo de atividade máxima perdido pela manhã. Por volta das 9 da noite, o corpo começa a liberar hormônios indutores do sono e os neurônios de novo se preparam para as funções noturnas. Diz John Fontenele Araujo, do laboratório de cronobiologia da Universidade Federal do Rio Grande do Norte: “Estudo depois dessa hora é sempre menos produtivo”.

Um novo e revolucionário capítulo sobre sono e aprendizado foi aberto pelas descobertas dos processos de aquisição e armazenamento de conhecimento. Para onde se caminha agora? A nova fronteira a ser quebrada é explicar a inter-relação entre os dados armazenados.

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Um recente estudo da Universidade Harvard vai exatamente nessa direção. Ele mostra os neurônios durante o sono fazendo conexões entre informações aparentemente díspares ou adquiridas em situações diferentes. “Isso explica o fato de muita gente acordar com a sensação de ter tido uma brilhante idéia enquanto dormia”, disse a VEJA o neurocientista Robert Stickgold, coordenador da pesquisa.

Muitas foram as soluções arquitetadas durante a noite por sábios da história. O químico russo Dmitri Mendeleiev (1834-1907) teve o clique decisivo para criar a tabela periódica dos elementos durante o sono. O canadense Frederick Banting (1891-1941), um dos agraciados com o Prêmio Nobel pela descoberta da insulina na década de 20, contou ter sonhado com a solução.

O caso mais intrigante é o do alemão Friedrich Kekulé (1829-1896). Debruçado sobre os mistérios da química orgânica, ele saiu-se com a estrutura da molécula de benzeno depois de sonhar com a forma arredondada de uma cobra devorando a si mesma. À luz das novas descobertas talvez não seja assim tão inútil passar um terço da vida dormindo.

O SONO DOS GÊNIOS

A ciência do sono nem sequer existia quando alguns dos maiores gênios da história já intuíam que, de algum modo, o repouso tinha papel fundamental em seus inesgotáveis processos criativos. Cada um adotou uma rotina de descanso própria, por vezes excêntrica, em busca do sono perfeito. Três exemplos:
Time Life Pictures/Getty Images

LEONARDO DA VINCI
(1452-1519)

O pintor da Mona Lisa e idealizador do princípio do vôo do helicóptero perseguia o descanso da mente com uma rotina incomum: trocava o sono noturno por cochilos de quinze minutos a cada duas horas.

THOMAS A. EDISON
(1847-1931)

O inventor da lâmpada mantinha um diário onde avaliava a qualidade do sono na noite anterior. Não queria perder tempo. Não passava mais de três horas na cama.

ALBERT EINSTEIN
(1879-1955)

Ele hibernava dez horas seguidas todas as noites, exceto quando estava às voltas com uma nova idéia. Nessas ocasiões, premiava-se com uma hora extra na cama.

QUANDO O REMÉDIO É DORMIR

As pesquisas sobre os efeitos das mudanças de hábito noturno já têm aplicação terapêutica em diversos casos

Problema: falta de concentração.
Quando é mais freqüente: na infância.
Como o sono pode ajudar: a mais abrangente pesquisa sobre o assunto, conduzida pelo Hospital Sacré Coeur, do Canadá, concluiu que o hábito de dormir dez horas seguidas reduz em 40% o risco de uma criança apresentar problemas de concentração. Para aquelas com dificuldade em dormir tanto, o estudo indica uma hora de atividades físicas diárias – cientificamente reconhecido como ótimo estimulante do sono infantil.

Problema: dificuldade em resolver questões que envolvem raciocínio lógico.
Quando é mais freqüente: na adolescência.
Como o sono pode ajudar: promove um necessário momento de descanso aos neurônios. Um estudo da Universidade Harvard mostra que, quando alguém passa dezoito horas seguidas sem dormir, perde cerca de 30% da capacidade de resolver problemas que exigem raciocínios complexos. Por essa razão, o melhor é fazer uma pausa noturna e só retomar os estudos pela manhã. A pesquisa revela que o desempenho intelectual melhora depois disso.

Problema: perda da capacidade de memória.
Quando é mais freqüente: a partir dos 60 anos.
Como o sono pode ajudar: uma das causas para a redução da memória nessa faixa etária é que o sono se torna mais leve e a fase REM – justamente durante a qual se consolida a memória de longo prazo – passa a durar 50% menos tempo. A saída, dizem os cientistas, é esticar o número de horas na cama. Aos 60 anos, as pessoas dormem, em média, cinco horas. O ideal para a memória seriam pelo menos oito.

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