Autogestão de Carreira

Introdução

“O homem nasce. Muitos são os caminhos que o conduzirão pela vida. Muitos serão os meios e suportes que ele irá encontrar neste percurso. Cada um tem seu caminho, mesmo aqueles que seguem lado a lado, numa mesma direção.” Companhia Laso de Dança

Trilho ou mapa?

Quando você pensa na sua vida profissional, qual a imagem que lhe vem cabeça, um mapa ou um trilho de trem? Pergunta difícil. Então vamos nos aprofundar um pouco mais nos detalhes:

Trilho

O trilho de trem como conhecemos é uma linha que oferece poucos desvios é pontilhada por estações cujas paradas são conhecidas e normalmente obrigatórias e certamente chegam a um ponto conhecido, cabendo ao condutor ou maquinista decidir unicamente sobre o controle da velocidade. Conduzindo a composição com mais calma e atenção, certamente não haverá qualquer risco de acidentes, porém caso aconteça algum imprevisto atrasos serão percebidos. Ao aumentar a velocidade da composição é possível atingir os pontos da linha em menos tempo, contudo o risco de acidentes sobre na mesma proporção.

Para compararmos nossa vida profissional com uma ferrovia é fundamental reconhecer que a identidade de valor das ferrovias está ligada a sua eficiência e pontualidade, ou seja, escolhemos esta ou aquela ferrovia pela capacidade dela chegar a determinado ponto, com o mínimo de risco e no tempo combinado, sem sustos e sem improviso e elas foram desenhadas para isto. Observe, porém o que acontece quando o plano bem traçado sofre um interferência externa e não planejada como um alagamento, queda de barreiras ou até mesmo uma prosaica boiada atravessando a linha. A única alternativa possível ao condutor é a parada da composição até que o imprevisto seja resolvido. Não existe espaço para mudanças de rumo.

O trilho da nossa carreira costuma receber o nome de plano de carreira, onde, nas empresas que o adotam os profissionais ingressam na corporação em uma determinada estação e vão seguindo no trem da empresa de cargo em cargo, de estação em estação em estação até que o ponto final da linha seja atingido ( presidência, conselho, etc.) em um tempo definido como bom pelos profissionais que gerenciam a corporação. Não são raros os casos em que ouço gestores com frases do tipo “Esta pessoa vai muito bem, vamos deixá-lo nesta posição por um ou dois anos para ele criar músculos e ai promovemos” ou ainda “Fulano tem as competências necessárias, mas, ainda e novo demais para a posição”.

Quando temos nossa carreira em formato de trilho, nossa vida está como a composição, com paradas definidas, tempos conhecidos, riscos baixos e quando aparece um imprevisto na linha, a composição para até que o imprevisto se resolva.

No final do século passado, eu trabalhei para uma grande empresa de consultoria, na época considerada uma das seis maiores, conhecidas no mercado como as BIG6 (big-six) onde a carreira dos profissionais era desenhada no formato de trilho, sendo a primeira estação o estágio, depois assistente, consultor júnior e assim vai até atingir o cargo de sócio internacional, numa jornada que demorava em média vinte anos.

Quando um profissional chegava a sócio local ( Brasil ) antes dos trinta e cinco anos era tido como o eleito, a mosca branca de óculos cor de vinho, enfim, uma raridade. Assim, todos colocavam o comando da sua carreira nas mãos da grande mãe que uma vez por ano decidia as promoções, sendo elas, simples ou duplas.

Quando cheguei nesta corporação eu já havia passado das estações iniciais, portanto embarquei no trem na estação Gerente. Havia ainda, a Gerente Sênior, Sócio Local e Sócio Internacional, apesar da minha intenção de fazer o caminho mais curto, foi informado que a distância entre a estação Gerente e a estação Sócio Local era de quatro anos, considerando uma velocidade de cruzeiro, ou seja, se nada der errado. Meu superior na época compartilhava de minha visão, afinal ele também havia embarcado na corporação na estação Diretor.

Mas espera um pouco, não havia uma estação Diretor no desenho original! Explico: Como o plano de carreira era muito quadradinho, quando um profissional de alto valor era contratado do mercado, apesar de possuir todas as condições para ser um Sócio Local, ele não havia percorrido as mesmas estações que seus colegas e, portanto precisaria ainda “mostrar a que veio” e assim, ficava nesta posição sanduíche ( entre o Gerente Sênior e o Sócio Local ) durante um ou dois exercícios até que pudesse ingressar como Sócio.

Este meu superior acreditava que as pessoas devem procurar seu caminho e me estimulou a fazê-lo até que no terceiro ano eu estava pronto para entra no seleto grupo dos Sócios Locais com menos de trinta e cinco anos, uau! Nas vésperas de disputar minha tão sonhada chegada à estação de trens com piso de mármore e fontes de água mineral, nossa empresa foi vendida, ou melhor, a parte da empresa que eu trabalhava foi vendida para outra do mesmo conglomerado e a notícia chegou na forma de uma boiada no trilho. Promoções suspensas por dois anos. Tomei minha decisão e desci do trem.

Naquele momento entendi que eu não estava preparado para conduzir minha carreira no formato de trilhos, ela é importante demais e quem deve cuidar dela não pode ser outra pessoa senão eu mesmo.

Mapa

Continuando com a pergunta original, falemos um pouco sobre o mapa. Conhecemos mapas de todos os tipos, cores e sabores, mas vamos utilizar como exemplo os mais democráticos que são as cartas náuticas. Para quem não está familiarizado, cartas náuticas são mapas de pequenas partes de mar e costa que possuem diversas informações para que os navegadores definam seu curso. Entre outras coisas, elas trazem latitudes, longitudes, profundidades, pontos de acesso, faróis, canais de entrada, correntes marítimas etc.

De maneira geral, elas possuem todas as informações para que o navegador tome a decisão de onde navegar e onde atracar, contudo, nenhuma delas define o caminho a ser seguido, ainda que algumas sugiram estes. Por exemplo, você pode sair navegando de Natal – RN até Dakar no Senegal, em linha reta contando com as correntes e ventos ou fazendo pequenos desvios de ilha em ilha de forma a conseguir suprimentos, água fresca e até companhia. Qual dos dois rumos será o melhor? Depende, depende da sua meta, das suas capacidades e do que você pretende com a viagem.

O fato relevante é que seja lá qual for a sua opção, ela será SUA. Com todos os ônus e bônus da decisão. Somente uma pessoa poderá definir a velocidade de sua viagem, quantas paradas terá se será feita somente de dia, se irá enfrentar as tempestades ou esperá-las passar e assim por diante. Para que Qualquer marinheiro possa levar seu barco até o destino, ele precisará conhecer o mapa, identificar os pontos de vantagem e desvantagem, formular sua estratégia e conduzi-la.

Quando o grande marinheiro, explorador e navegador Amyr Klink decidiu atravessar o oceano em um barco a remo, certamente ele considerou pontos de vantagem e desvantagem para sua tarefa, mas, conhecedor de sua obra, posso relatar alguns pontos bastante interessantes que nos levarão a refletir sobre este aspecto: O primeiro ponto favorável é o conhecimento das correntes marítimas, pois quando ele não estava remando, o barco precisava continuar a rumar na mesma direção traçada, sob pena de colocar tudo abaixo. Ele conhecia uma característica do seu ambiente que era favorável, ou seja, mesmo quando ele não estava dedicando esforço direto ao progresso, haviam fatores externos que o impeliam na direção definida.

O segundo ponto de destaque refere-se à embarcação em si. Sou marinheiro a vinte anos e tenho dois medos enormes que me mantém bastante alerta quando estou navegando: Fogo e água. Um incêndio abordo é uma coisa rápida e devastadora, quase não há tempo para salvar nada, ou você está prevenido com sistemas de combate automático ou vai precisar saber nadar muito bem. Quanto a água, não existe quem não tenha passado um perrengue com vazamentos, ondas que quebram no cockpit e capotamentos, estes por sua vez inundam a embarcação tão rapidamente que poucas se salvam. Agora, imagine você, o risco de capotamento de um barco a remo atravessando o oceano Atlântico. Amyr tentou de várias formas desdenhar um barco que não capotasse, sem sucesso, até que seu projetista veio com a idéia mágica: Vamos fazer um barco que capote muito bem, quantas vezes forem necessárias e ainda assim fique inteiro.

Bingo! Ao mudar a estratégia de proteção para adaptação, os dois encontraram a foram de lidar com esta variável do ambiente e tirar vantagens dela, assim como o bom profissional ao conhecer seu ambiente, suas variáveis e principalmente a si mesmo, poderá construir seu caminho ao longo do mapa.

Condutor ou passageiro

Para completar analise inicial de intenções vamos considerar mais um aspecto de definição: Ao pensar na sua atuação frente a sua carreira profissional como você se define; Condutor ou passageiro?

Esta pergunta parece mais simples, a maioria das pessoas que conheço gostaria de ser o condutor da sua própria carreira profissional, entretanto, existem momentos diferentes que exigem posturas diferentes de cada profissional. Vamos analisar as possíveis combinações de escolhas de forma que você possa dar o passo inicial na sua decisão.

Antes de tomar a decisão é fundamental ter em conta que a aparente clareza da decisão de ser o condutor de sua carreira, assim como noventa por cento dos participantes dos workshops de carreira que fazemos, deve-se considerar que os passageiros gozam do conforto de ser transportado, da tranqüilidade de não ter que decidir sobre caminhos e desvios e mais ainda, não são responsáveis por eventuais contratempos da viagem.

Optar pela condição de condutor exige que ao mesmo tempo exista uma clara declaração de aceitação da responsabilidade sobre as decisões que serão tomadas, com suas conseqüências, riscos e todo o trabalho que vem associado a ela. Existem diversos profissionais que encontraram a realização profissional trabalhando em cargos técnicos de grandes empresas, seguindo uma carreira delineada pelas políticas da empresa e nem por isso são menos realizados ou infelizes com o que fazem.

Até meados do século passado, isto era considerado um virtude para o mercado de trabalho. O profissional que adentrasse em uma empresa ainda em cargos inferiores como assistente, Officeboy, mensageiro e outros tantos cargos de entrada e que após vinte anos de empresa estivessem em uma gerencia ou coordenação eram considerados como exemplos a serem seguidos.

No ano de 2009, assisti a uma palestra sobre o valor da marca do Banco Bradesco, que neste ano foi considerado a empresa com a marca de maior valor pelos critérios da revista The Brander, onde o diretor de marketing orgulhava-se da política de carreiras fechadas deste Banco. Por carreiras fechadas, entende-se que os profissionais que são escolhidos para ocupar cargos de coordenação, gerência e diretoria, necessariamente são oriundos das bases das empresa, havendo inclusive, vice-presidentes que iniciaram no Banco como mensageiros e Officeboys.

Veja como estas escolhas se cruzam:

Trilho e Passageiro

Os profissionais em início de carreira uma vez que resolvam ingressar em uma corporação, serão mais bem sucedidos, ao contar com a proteção de um plano de carreira. De maneira geral esta proteção é encontrada na forma de programas de trainees onde não somente a empresa estabelece os passo iniciais da carreira como profissionais mais velhos fazem o papel de mentores com foco na orientação dos primeiros passos, definindo o pode-não-pode das atividades que serão desempenhadas.

Nesta fase, os profissionais com perfil empreendedor tendem a se sentir frustrados pois saíram da universidade cheios de vontades e sonhos de mudar o mundo. Quando estes profissionais chegam nas empresas que os contrataram encontram estes processos de formação que tem como meta, antes de mais nada, condicionar os novos profissionais ao modelo de operação da empresa. Alguns conflitos são esperados, todavia, se o jovem profissional souber conviver com a ansiedade dos primeiro anos, certamente será bem sucedido.

Está situação se torna patológica ou inadequada para a condução da carreira, quando o profissional tem mais anos de profissão, bastante experiência acumulada e portando capaz de tomar decisões e assumir riscos e ainda assim, busca o conforto do passageiro em um trem sendo guiado por outros. Vários executivos que conheço tem citam o famoso bordão: “também é preciso ter soldados!”, concordo, porém na hora de premiar, valorizar e reconhecer estes soldados certamente ficam por ultimo e serão premiados com o relógio de ouro por estar na empresa a vinte e cinco anos e quem sabe, na mesma função.

Trilho e Condutor

É uma boa situação para profissionais novos, porém com liderança e experiência em suas funções, normalmente, esta é uma condição apropriada para profissionais em situação de primeiro comando, ou seja, aqueles que saíram das linhas e passaram a coordenar pequenos grupos de antigos colegas.

Por si só, esta é uma situação bastante estressante pois o profissional em primeiro comando lida com a incerteza das ações a serem tomadas, carece profundamente de feedback de seu gestor e é encarado com um ser diferente. Para os gestores ele ainda não é um colega, pois acabou de assumir e ainda tem muito chão pela frente. Além do mais, até pouco tempo atrás ele estava entre os profissionais de linha sendo visto pelos gestores como um subordinado. Inúmeras vezes testemunhei novos gestores tendo de ser severos e as vezes rudes, para lembrar aos colegas que agora não mais respondia as ordens destes.

As palavras-chave para esta escolha são renovação, oxigenação, melhoria, observe que a palavra inovação na faz parte da lista pois inovar antes de tudo e romper com o modelo atual, escolha que não cabe a um profissional que está em posição de novo comando. Ele precisa apresentar idéias novas, mostrar seu potencial, mas sem romper com o que existe. Muitas vezes ao fazer esta opção sustentada em idéias inovadoras em demasia ( na opinião de outros) o profissional poderá criar um onda de resistência ao seu primeiro comando, sendo considerando como uma escolha infeliz por seus superiores.

No ano de 2001, eu fui contratado por uma grande empresa do ramo de seguros para ser o responsável pela informática da empresa. Cheguei a esta oportunidade pelas mãos de uma headhunter bem conceituada e meu processo de seleção foi bastante detalhado, incluindo uma sabatina efetuada pelos diretores e pelo vice-presidente da empresa, até que depois de validado fui recebido pelo presidente e herdeiro do fundador.

Entre outras recomendações ele me passara a seguinte missão: Recolocar a empresa entre aquelas de destaque pelo uso de sua tecnologia, imagem que meu antecessor por uma série de motivos havia deixado de lado, porém, no seu mercado de atuação era uma credencial importante. Dizia-me ele: mude, inove, crie, estamos precisando de uma sacudida na empresa. Eu já era então um executivo com certo nome no mercado, porém, no mercado de consultoria e agora eu assumia uma posição executiva do outro lado da mesa.

Tipicamente uma situação de novo comando e certamente eu deveria assumir uma postura de comando da minha carreira, mas mantendo-me no trilho que a empresa possuía. Infelizmente a experiência só vem com o tempo. Incumbido de minha missão me armei de espada a armadura para eliminar os paradigmas, modelos ultrapassados, dogmas e tudo o mais que como consultor eu havia feito, aprendido e ensinado. Para resumir a história, meu mandato não completou um ano. Fui convidado pelo presidente desta empresa a ter sucesso em outra qualquer, menos na dele. O argumento que ouvi foi que eu não era compatível com a cultura da empresa, fato que passada a frustração da demissão, tive de concordar plenamente. Ao conversar com minha amiga e headhunter sobre o ocorrido, ela me posicionou que o presidente havia dito: “Rapaz muito bom, mas difícil de domar e com uma postura imprevisível”. Hoje eu teria feito diferente ou não teria aceitado o trabalho.

O que fica de lição e que compartilhar contigo é que nesta situação de Condutor e Trilho, busque renovar seu entorno, gere valor para seus stakeholders mas, lembre-se que a cultura, que forma o trilho, ainda guia seus passos e velocidade demais pode descarrilar. Esta situação se torna patológica, quando o profissional desenvolve esta postura por longo tempo, ficando aprisionado pela cultura da empresa e incapaz de provocar mudanças. Um claro sintoma é a inexistência de um sucessor preparado. O profissional pode até considerar que está no comando de sua carreira, pois possui influência, tem uma esfera definida de decisão, subordinados que o seguem mas ainda precisa do conforto do trilho para continuar em frente. Situações patológicas como estas são os primeiros alvos de remanejamento quando a empresa ou precisa crescer, ou entra em dificuldades.

Este é uma pequeno trecho do livro Autogestão de Carreira, Você no comando da sua vida. Para conhecer o texto na íntegra, acesse: http://minhacarreira.ning.com

minhacarreira.ning.com

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s