Cristian Stassun presente na matéria de Capa da Revista Istoé


Clique na foto para ver reportagem completa…

Acompanhe a entrevista completa fornecida a edição da revista.

1- Em linhas gerais, como você imagina que será o mercado de trabalho brasileiro daqui 30 anos?

Não é a ficção científica que antecipa o mercado de trabalho, sem alarmismo e com cautela podemos dizer que hoje as empresas já reivindicam funcionários com perfis diferentes daqueles formados pela universidade, enfrentam o choque de gerações, precisam formar times e não grupos setorizados, e também estão ansiosas para saber mais sobre os rumos da tecnologia e como os colaboradores vão se adaptar em novas rotinas e procedimentos de trabalho.

O futuro cria uma expectativa de gerar novas regras de consumo das profissões pelas empresas, o produto humano pronto e acabado, com alta formação, foco no resultado e múltiplas competências serão escassos, pois essa legião de especialistas que se formarão no futuro, venderão suas horas de trabalho para várias empresas ao mesmo tempo, aumentando o número de profissionais freelances, independentes, com uma grande capacidade de fazer conexões interdisciplinares e que serão mais compromissados com os seus valores e metas do que a das empresas. A oportunidade de empregos daqui a 30 anos será para pessoas com perfil semelhante aos equipamentos tecnológicos multitarefas, pois não será mais a internet a chave da mudança, pois essa fase já estamos vivenciado, o ser humano está nascendo com a cibercultura enraizada nos modos de sociabilidade, na espetacularização da intimidade, na hipermobilidade universal dos acessos e relações, e a expectativa agora, será de trabalhadores construídos pelos sintomas da internet, entre eles, a altíssima velocidade e o acesso remoto.

O trabalho com horários mais flexíveis e com possibilidade de ser feito em casa esconderão perigos eminentes, o de passar mais tempo envolvido com o trabalho em todos lugares e menos com as relações familiares integralmente, pois os aparelhos tecnológicos acompanharão o nosso corpo com tarefas de trabalho o tempo todo, buscando respostas a essas demandas remotamente, instantaneamente. Serão mais repentinas as mudanças de humor, de carreiras e de insatisfações existenciais. Hoje o índice de desistências de cursos universitários chega a 35% em universidade públicas, o número de escolhas por profissões tradicionais chega a 70%, e anunciam uma crise de empregabilidade para recém-formados na faixa de 25 anos bem maior, podemos prever um caos pela mudança repentina dos direcionamentos da economia, das crises financeiras globais e da saturação de determinadas profissões no mercado. Temos pessoas cada vez mais jovens assumindo cargos de gerência e diretoria, porém essa disputa tende a se aquecer, com mentes cada vez mais programadas para serem talentos precoces.

Mudarão as formas de trabalhar, e não o número de profissões, pois com a ampliação da diversidade de atuação das profissões tradicionais, a mudança rápida de perfis dos novos profissionais já foi antecipada. A chamada geração Y mal foi anunciada, e já apontam a geração Z, mudando comportamentos mais rapidamente que em gerações anteriores. E não é só o perfil das pessoas, a cultura de gestão das novas empresas, principalmente na área de TI anunciam como serão os modelos de empresas daqui a 30 anos, a exemplo, do crescimento de empresas bilionárias que esta se alastrando de forma viral, a Google chegando a 1 bilhão de dólares em 8 anos, o Facebook em 2 anos e o Groupon em 8 meses.

O espaço para o comportamento empreendedor daqui a 30 anos será vital, todas escolas terão como disciplina básica em seus currículos, o valor das boas ideias que hoje se sobrepõe ao trabalho repetitivo vai ser o segredo fundamental, as escolas desenvolverão mais a criatividade do que a repetição de fórmulas para o vestibular, e o meio ambiente sofrerá tanto quanto o trabalhador com a aceleração desse ciclo.

Há também, uma expectativa de ter mais profissionais com formação acadêmica a partir da politica de financiamento de ensino superior feita pelo governo brasileiro. Esse fator pode aumentar significativamente o número de candidatos em concursos públicos e consequentemente muitos profissionais trabalharão fora de sua área de formação. Aos poucos aumenta a dificuldade das indústrias acharem trabalhadores de chão de fábrica, pois diminui a cada dia a oferta de interesse de pessoas querendo trabalhos braçais, a tendência é que esse processo antecipe a robotização dos meios de produção.
2- Trabalharemos cada vez mais? Se sim, isso é necessariamente ruim?

 

Essa rapidez das mudanças do trabalho oferecerá consequências para o corpo e mente das pessoas. Até quando o estresse causado pela pressão de resultados rápidos vai ter suporte biológico, adaptabilidade psicológica e condições sociais para progredir? A ONU garante que em 2020 a doença que mais vai matar será a Depressão. Hoje, os consultórios recebem milhares de pessoas, depois que os remédios que só diminuíram sintomas não ajudam mais, com doenças que sempre tem o plano de fundo, o fundamento do trabalho. Que é o palco onde as pessoas passam maior parte de seu dia e de onde carregam para casa, a tensão diária.

Esse problema da depressão é curioso porque aparece com mais força quando as expectativas de vida de uma pessoa cessam, perdem o sentido, e motivação de um futuro melhor parece não mais existir. A aposentadoria virou preocupação evidente para os psicólogos e consultores de carreira, pois quando acaba a rotina corrida do trabalho de uma vida, o relógio biológico ainda está girando naquela velocidade, a vitalidade física ainda existe, o aposentado está cada vez menos idoso e a mente não reconhece o início da inatividade. O Choque dessa fase da vida, que muitos tentam remediar dizendo da melhor idade, é, onde as decorrências psicológicas resultantes da dificuldade de adaptação frente ao rompimento com o trabalho mais se evidenciam.
3- O conceito de aposentadoria dos sonhos vai cair por terra? Quero dizer: morreremos trabalhando?

 

A tendência é de que cada vez mais o ser humano continue simultaneamente ativo frente a cultura de trabalho que construiu no decorrer de sua trajetória. O futuro é antecipado pelos modelos de trabalho que existe na atualidade. O aposentado virará apenas uma nomenclatura previdenciária e não restritiva de comportamentos. Pesquisas concluíram que o aumento da expectativa de vida não é apenas fator genético, as pessoas estão mais saudáveis pois são mais ativas, é muito além dos avanços da medicina e diminuição do trabalho com exigência de alto esforço físico, o significado da aposentadoria está mudando, e por isso a postura frente ao cotidiano do aposentado está se transformando. Os idosos estão encarando essa fase de modo diferente. O conceito de morte social e isolamento na aposentadoria ficou obsoleto nos últimos 10 anos, pois a grande esperança de férias permanentes do trabalho, colidem com a percepção de que a fase de descanso cansa, de que o bem estar vem da ocupação, a perspectiva de mais anos abrem portas para um novo planejamento de vida e projeto de futuro, e que a vida a partir disso pode virar desenvolvimento pessoal, prática de esportes, novos relacionamentos afetivos e descobertas de outras atividades prazerosas, e é claro, a busca constante por sentido vivo da existência. Não se espantem se o personagem do super-homem daqui 30 anos virar o de super-avô.
4- As empresas já estão se preparando para absorver as pessoas mais velhas? (Considerando que 25% da população terá mais de 60 anos em 2050). Se não, o que elas poderiam começar a fazer?

 

Prevendo que daqui a 30 anos a população da faixa de 60 anos estará mais ativa, com maior vigor físico, os aposentados serão mais jovens, não apenas no sentido psicológico, mas no sentido de disposição e saúde, podemos prever um grande ressignificação da velhice e do valor social a ela atribuído. Muitas empresas chamam as pessoas mais velhas para participar da vida das empresas como conselheiros, muitos adiam a aposentadoria, outros continuam em outros trabalhos paralelos.

Cito um trabalho importante em Santa Catarina feito pela UFSC. Lá desenvolvem um processo muito interessante em relação à aposentadoria chamado Aposenta-Ação (Programa de Preparação para Aposentadoria), que é elaborado com reuniões grupais com objetivo de facilitar o enfrentamento desta nova etapa da vida. E uma das dinâmicas é a reorientação para o trabalho, para o investimento em outras áreas, outros negócios, inclusive com o apoio do SEBRAE. O empreendedorismo em outros negócios pode gerar um reforço, uma motivação para também replanejar a vida, criar expectativas aí de um novo jovem iniciando um projeto para décadas futuras.
6- Como são vistas as pessoas com mais de 60 no mercado de hoje?

Quem hoje tem qualificação e formação, ou é expertise na área que atua, com a idade ganha até um poder simbólico maior no exercício de sua profissão. O cabelo branco ajuda muito no fechamento de negócios, passa serenidade, experiência e segurança. O mercado absorve pessoas altamente qualificadas mesmo sendo mais velhas, o problema está com que tem pouca ou nenhuma qualificação.

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